2026
Sematawy. Aquele que unifica duas terras.
Esta foi uma de muitas alcunhas que o faraó Mentuotepe II assumiu após derrotar os reis de Heracleópolis e reunificar o Egito — processo que avançava a todo vapor quando chegou o réveillon de 2026 a.C.
Naquela noite, Mentuotepe e seus súditos tinham muito a celebrar: as vitórias ao norte; a cheia do Nilo; a nova capital Tebas que surrupiou de Mênfis o trono do império.
Ainda assim, não houve fogos: estes seriam inventados quase dois mil anos depois, na China.
Mas nem por isso a noite foi menos mágica.
O povo saiu às ruas pra curtir as festividades, muitos trajando linho branco e calçando sandálias de couro: moda em Tebas, febre em Caraíva.
Uma distinção importante, contudo, é que, embora os egípcios já tivessem pleno domínio da astronomia, e, por conseguinte, a noção da existência de fusos horários, ninguém foi visto dizendo: Já é ano novo na Austrália!
Afinal de contas, levaria mais três milênios até que o primeiro ocidental aportasse na Oceania.
Uma pena, mas certamente o Wepet Renpet — como era conhecida a data no Egito — não carecia de um cardápio próprio de tradições e crendices e de trocadilhos envolvendo sobremesas.
2026 chegou para os egípcios igualzinho a 2027 e a 2028 antes disso. A mesma comilança, a mesma ressaca, as mesmas resoluções.
Pelo menos, Mentuotepe não teve que aturar sóbrio a parentada folgada que veio lá do fim do mundo pra curtir a virada no palácio. Embora ainda não existisse espumante — invenção muito mais recente do que se imagina — tinha cerveja de sobra, inclusive para as crianças.
E haja cerveja pra refrescar o calorão que devia estar fazendo! Afinal, a virada do ano por lá era baseada na ascensão da estrela Sirius, o que dava por volta do dia 19 de julho do nosso calendário: altíssimo verão no hemisfério norte.
À época, entre campanhas militares e maquinagens políticas, o grande projeto do faraó era a construção de um templo funerário em Deir el-Bahari: obra que já rolava há décadas, e que ainda tinha muita pedra pela frente. O templo é hoje uma das principais atrações de Luxor (antiga Tebas) e é considerado uma obra de vanguarda, que rompeu com os padrões cansados do passado. Pirâmide — disse o faraó a seus arquitetos — é coisa de velho. Deus me livre.
Mas, embora estivesse tão empenhado em se preparar para a morte, Mentuotepe II certamente não tinha deixado de curtir a vida.
Além de Tem, sua fiel esposa, com quem teve o filhão Mentuotepe III, ele também andava de papinho com Neferu, Kawit e Henhenet, além de Ashayet, Kemsit e da belíssima Sadeh, a quem reservou o apelido de khekeret-nisut: o único ornamento do rei. E essas são apenas as que ele permitiu que documentassem.
Que ano!
Olha, o meu ano foi muito bom, também.
Eu ainda não possuo um lugar pra morrer, mas em 2025, assegurei um lugar pra viver. O prédio é de 1973 e fica num cantinho bem gostoso de Berlim Ocidental. Dois números pra esquerda viveu o escritor Bertolt Brecht; à época, escondido na casa de amigos após participar de uma tentativa fracassada de golpe na República de Weimar. Logo à frente da minha porta, dois ladrilhos dourados exibem os nomes de um casal de judeus sequestrados em 1943 e que acabaram mortos no campo de concentração de Sachsenhausen.
A casa deles não existe mais, e, ainda que, no momento, eu esteja empenhado em escolher azulejos e luminárias e estantes para os meus livros, tenho plena consciência de que, algum dia, a minha casa também desaparecerá.
São poucas as construções que têm o privilégio de sobreviver às civilizações que as ergueram. Morro de curiosidade de saber o que vai sobrar de pé pra servir de testemunho do nosso 2026.
Qual será o nome que o povo do futuro dará a esse nosso aqui e agora? Nenhuma civilização sabia do seu nome enquanto ainda existia. O pai de Mentuotepe II não se enxergava como o último faraó do Primeiro Período Intermediário. Seu filho não fazia ideia de que inauguraria o Império Médio.
Talvez eles acreditassem viver na crista da história; no mais importante dos tempos; no fim do passado e no começo do eterno presente.
Muita gente acredita nessa falácia ainda hoje.
Somos os últimos dos primeiros e os primeiros dos últimos.
Vivemos no auge do segundo ato da existência humana; a meio caminho entre a origem e o fim dos tempos.
O clímax está próximo — disso os profetas vêm nos alertando há um bom tempo.
2026 será um ano fatídico, midiático, mesozoico.
Um ano que jamais será esquecido.
Que bênção estar vivo justamente nesse ano!
Mas a matemática do tempo é traiçoeira.
Eu não sou bom de geometria sagrada e nunca fui visitado por um mensageiro do apocalipse, mas pode muito bem ser que o verdadeiro ano fatídico tenha sido o outro 2026 — aquele do Mentuotepe.
Pode ser que desde então, tudo o que aconteceu tenha sido um mero epílogo.
Ou pode ser que tudo isso — de Tebas a Caraíva — seja apenas parte de um longo prólogo.
5052 anos nos separam daquele réveillon.
Nem é tanta coisa assim, vai.
Bora curtir sem se preocupar com o que vem depois.
Um brinde ao faraó. Um brinde a 2026. E um brinde aos erros de arredondamento.
Eu podia estar matando, roubando ou fazendo publi de bet, mas aqui estou, na humildade, pedindo pra você compartilhar essa publicação com alguém especial. Um amigo, um parente, um ex que você não esquece, um crush que já esqueceu de você. E se você quiser receber as publicações da Solário por email, basta se cadastrar clicando no botão Subscribe. A Solário é gratuita e escrita por humanos, para humanos. Sem agenda oculta e sem IA.