Acredite se puder
— Mas é verdade essas coisas que você escreve? — perguntou minha amiga Kathrin. — Eu acho que é mentira. Ou sei lá... um misto.
Eu me recuso a responder a esse tipo de pergunta, Kathrin, e vou te dar três boas razões:
A primeira delas é que o oposto de verdade não é mentira.
Não necessariamente.
Existe também a inverdade, por exemplo. E o engano. A omissão. A loucura e a ilusão. O sonho e a brisa. A miragem, a autossabotagem, o dogma.
Provavelmente, a palavra que você tinha em mente não era mentira e sim ficção.
Mas a ficção conta como oposto da verdade?
Olha, eu passei anos buscando uma definição para a arte.
Bolei definições super restritivas, pelas quais esse texto aqui não teria passado.
Bolei outras tão amplas que permitiam até mesmo ao Romero Britto se chamar de artista.
Mas foi apenas recentemente — depois de uma conversa com você sobre inteligência artificial — que ficou claro pra mim que eu passei a vida inteira olhando para o objeto errado.
Ou melhor, olhando para o objeto em vez de olhar para o sujeito.
A arte não é o produto. A arte é o processo.
Uma criança pintando o sol no guardanapo da pizzaria é arte.
Um imbecil mandando o ChatGPT criar um vídeo de um corgi cantando Metallica é apenas um imbecil mandando o ChatGPT criar um vídeo de um corgi cantando Metallica.
Se mandar fazer fosse o mesmo que fazer, então o Papa Júlio II, que mandou pintar a Capela Sistina, teria sido um artista tão brilhante quanto Michelangelo.
E assim como a arte se define pelo ato e não por sua consequência, a ficção se distingue da mentira não pela substância, mas pela motivação.
A mentira trapaceia. A ficção testemunha.
Em Conversa fiada, eu não menti sobre o inferno. Apenas entreguei o meu testemunho, assim como Virgílio na Eneida, James Joyce em Retrato do artista quando jovem, e o Cartoon Network em Meninas Superpoderosas.
Qual desses testemunhos é verdadeiro?
Não tente responder.
A beleza maior de todas as coisas é justamente a ambiguidade — e essa é a segunda razão, Kathrin.
Se eu te falasse que tudo o que eu escrevo é verdade, posso garantir: você perderia o interesse.
É 2026. Ninguém tem saco pra fatos.
Por que ser honesto quando você pode ser mágico?
Agora imagine o oposto. Imagine que eu te falasse que nem tudo o que eu escrevo é verdade. Que aqui e ali eu tomo liberdades, preencho lacunas, conto umas histórias pra boi dormir.
Se eu admitisse isso, igualmente perderia o seu interesse, pois eu estaria confessando o estelionato narrativo.
É 2026. Não tem mais mercado pra falso profeta.
Fato é que muitos dos meus leitores me conhecem pessoalmente. Conversam comigo pelo WhatsApp. Correm risco de virar personagem.
Eu adoro isso.
Mas me forçar a admitir ou negar a verdade do que escrevo não é derrubar a quarta parede: é tirar o chão.
A crônica é o jornalismo de Schrödinger: enquanto a caixa estiver fechada, é tudo fato e ficção ao mesmo tempo.
Se você quiser uma resposta definitiva, vai ter que sequestrar e torturar o cronista.
Mas ainda assim, você confiaria?
Esse tipo de gente não entrega a paçoca nem sob a mira de um revólver. O próprio Machado morreu se recusando a dizer se a Capitu traiu o Bentinho.
E sabe por que? Porque nem ele sabia a resposta.
Eis a terceira e última razão — uma observação matemática que me persegue há muitos anos.
A cada dia que passa, nós aprendemos mais sobre o mundo e sobre nós mesmos. Mas tem como aprender tudo?
A lógica é implacável: um mapa da Terra que retratasse todos os seus detalhes teria que ter o tamanho da Terra.
É absurdo, é impossível.
Nós podemos ampliar o mapa, mas ele nunca se completa.
A praia que você acabou de descobrir pode ser uma ilha ou um pedaço de continente. Pra descobrir, é preciso contorná-la. Isso pode levar dias, meses, uma vida inteira.
Vale a pena?
Às vezes, a ficção é mera preguiça de ir atrás da verdade.
Ou medo.
Ou sabedoria.
E é por isso que boa ficção envolve não apenas o leitor, mas também o próprio escritor.
Por que fazer uma pergunta se você já sabe a resposta?
Mas essa incerteza assusta, e a gente acaba preferindo se agarrar ao mapa, por mais incompleto que ele seja e sempre será.
E, de fato, o mapa nos faz muito mais difíceis de ludibriar.
O preço disso? Ele também nos faz mais difíceis de encantar.
E assim, a vida se torna uma sequência de ficções cada vez menos convincentes.
A verdade? A verdade é apenas uma assíntota.
De início, a gente se aproxima dela bem rápido.
Depois, cada vez mais devagarinho.
Meio confusos. Meio difusos. Arrítmicos. Logarítmicos.
A morte é a derivada final — é o fim do exponencial.
Desaparecem as ficções. Colapsa a verdade. Resta apenas um eterno não-existir. Sem dúvidas, sem arte, sem ambiguidade.
Mas até que venha esse dia, a gente precisa decidir se vive a vida apertando o olho pra tentar enxergar a verdade lá longe no horizonte, ou se vive de olhos bem abertos para os testemunhos do aqui e agora.
Tá... você falou, falou e não disse nada.
Eu te conheço desde o segundo colegial. Sei que é exatamente isso que você está pensando.
Pois na falta de uma resposta, vou deixar aqui uma contra-pergunta:
Aquele quadro que você pintou. O da banheira cheia de lama, tomada de plantas, com o pato boiando. O que eu te falei que parece uma mansão abandonada, lentamente absorvida pela natureza.
Esse quadro é verdade?
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