Ato de guerra

Ato de guerra
Photo by James Wainscoat / Unsplash

— Eu sou faixa-preta de jiu-jitsu. — ameaçou a mulher. — Dona da academia. Vai peitar?

Essa foi a primeira vez na vida que recebi uma ameaça de surra.

Minhas altercações físicas do passado — concentradas entre o pré e a quinta série — costumavam já começar pelas vias de fato.

Mas eu entendo a minha rival: uma fila de supermercado não é lugar propício para ataques-surpresa.

Naquela tarde, eu tinha saído com meu pai pra fazer umas comprinhas e fomos parar num mercado lotado.

O caixa de quinze volumes parecia uma crise humanitária, então pegamos uma fila comum.

Logo à nossa frente tinha uma mulher baixinha, loira falsa, de trinta e poucos anos.

Numa mão, ela carregava a bolsa; na outra, dois potinhos de iogurte. Sem cesta, sem carrinho.

A fila avançava a passos de tartaruga.

Débito ou crédito?

Dez minutos.

CPF?

Vinte.

A cada bipada do código de barras eu sentia mais uma gota de sanidade escorrendo pelo suor.

Quase uma hora tinha se passado quando finalmente o rapaz do caixa chamou:

Próximo.

Era a vez da mulher à nossa frente — e essa ia passar rapidinho. Ou pelo menos era isso que parecia.

Assim que o caixa guardou o separador na canaleta, a mulher fez um sinal pra uma senhora lá no fim do corredor, que veio empurrando um carrinho transbordando de compras até a boca do caixa, na maior cara de pau.

Eu não quis nem saber.

Imediatamente bloqueei a passagem e anunciei:

— Ninguém vai furar essa fila.

Mas a mulher também não hesitou.

— Essa senhora é minha mãe — ela rosnou. — Sai logo da frente.

Respirei fundo. Muito fundo.

Então expliquei a ela que a fila do mercado é um lugar, não um conceito. Só está na fila quem está — fisicamente — na fila.

— Eu já te disse que ela tá comigo. Você vai sair da frente ou não?!

Decidi então ilustrar de forma mais didática:

— Se você tivesse vindo ao mercado com mais trinta e sete primos, eu teria que esperar todos eles passarem no caixa?

— Escuta aqui — ela retrucou, já dando um passo à frente e pondo o dedo na minha cara. — Você tem noção com quem tá falando?!

Bom, julgando pelo contexto — um mercado de pobre num bairro periférico em pleno dia 5 — com certeza, não com muita coisa.

— Eu sou faixa-preta de jiu-jitsu. — ela ameaçou. — Dona da academia. Vai peitar?

Um fio de gelo se espalhou pelo meu corpo.

De repente, me dei conta de que ali havia um outro ser humano em clara disposição de me agredir. Aquela ameaça era real; não era um bate-boca com o call center da Claro ou um quebra-pau no grupo do condomínio. Mais uma pitadinha de cinismo, mais um decibel no tom de voz, e as sirenes iam tocar.

Mas ceder o lugar pra furadora? Jamais.

Como se tomado por um feitiço, meu corpo assumiu vigor de combate. Meu coração batia com frieza predatória. Minhas pupilas dilataram. O tempo parou.

E então, carregado pelo instinto, eu abri fogo:

— Sabe o que vai acontecer se você encostar em mim? — eu disse, rasgando um sorrisinho.

A mulher apoiou os iogurtes na esteira e cerrou os punhos.

O caixa, meu pai, a mãe dela, os outros clientes: todos assistiam, paralisados.

— O segurança ali atrás vai chamar a polícia. Você vai sair daqui presa em flagrante por lesão corporal.

Ela arregalou os olhos.

— Esse seu iogurte? — apontei pra esteira — Vai pro lixo. Hoje à noite, você vai comer marmita de arroz azedo com salsicha. E amanhã, também. E todos os dias, até sair o habeas corpus. Te parece uma boa? Então vai — virei a cara e dei dois tapinhas na minha bochecha. — Paga pra ver.

A mulher tremia de ódio. Quase babava.

Gaguejando, ela recorreu à pessoa atrás de mim numa última tentativa de conseguir um atalho, mas teve o pedido negado.

Derrotada, restou-lhe apenas uma opção: voltar ao fim da fila.

Vinte anos de tatame pra tomar uma submissão dessas. Triste.

— Você podia ter dado o lugar pra elas — comentou meu pai, assim que saímos do mercado.

Não, eu não podia — expliquei.

Nós vivemos num mundo com fetiche por babaca.

Num mundo em que a turma do fundão emparedou a diretoria e saiu dando cuecão em geral; impune, imune, imparável.

Ceder pra evitar dor de cabeça é um ato de covardia, se não de mera estupidez. Na melhor das hipóteses, te faz um pamonha; na pior, um comparsa.

2026, meus amigos, é o ano da morte da ambiguidade.

Não existem mais meias palavras, nem meios vetados. A permissão foi nocauteada pela possibilidade. Quem não concorda, que vá à guerra portando um bloco de notas de repúdio.

É hora de dizer adeus à inércia pacifista.

Razão ou paz? Razão. A mais pura e inegociável razão.

Portanto faça sua parte e berre com um folgado. Pegue o mala pelo cangote. Ameace o infrator de processo. Leve adiante. Não aguarde mais que alguns minutos na espera do médico. Nove e meia não é meio-dia. Querem te cobrar a consulta pelo cancelamento sem a devida antecedência? Não pague. Quem cancelou foi ele ao não comparecer no horário combinado. Peite. Dobre a aposta. Morda quem te mostra os dentes.

Não viva sonhando em punir Trump, Maduro ou Putin.

Seja a punição que você quer ver no mundo.

Puna o próximo.


Eu podia estar matando, roubando ou fazendo publi de bet, mas aqui estou, na humildade, pedindo pra você compartilhar essa publicação com alguém especial. Um amigo, um parente, um ex que você não esquece, um crush que já esqueceu de você. E se você quiser receber as publicações da Solário por email, basta se cadastrar clicando no botão Subscribe. A Solário é gratuita e escrita por humanos, para humanos. Sem agenda oculta e sem IA.