Comédia romântica
Semana passada fui à festa de quarenta anos de um amigo.
Ele fechou um barzinho no coração de Prenzlauer Berg.
O evento estava marcado pras oito, mas, como manda a cartilha, minha namorada e eu chegamos um pouco antes das nove.
Os ganchos de parede estavam todos ocupados, então deixei meu casaco dobrado sobre a bancada da janela e fui cumprimentar o aniversariante.
— Talvez tenha sido ambicioso marcar pra tão tarde — ele brincou. — Tem gente que não vai vir porque não conseguiu babá.
O lugar era apertadinho e aconchegante, iluminado pela luz dourada de meia dúzia de abajures de chão.
No fundo do salão, dois sofazinhos de veludo ocupavam o espaço entre a janela e uma máquina dessas que vendem cigarro.
Aqui e ali, mesas altas serviam de apoio pra taças e cinzeiros, e também pras luvas e cachecóis dos convidados.
Antes de mais nada, decidi dar uma passadinha no bar.
— O drinque da casa é o cosmopolitan — explicou o dono; um homem com franja de David Bowie e que devia beirar os sessenta. — É uma receita especial.
Momentos depois, uma taça de líquido rosa fosforescente apareceu na minha frente.
— Bebe que tem chorinho — disse o homem, segurando a coqueteleira.
Um único gole e eu já comecei a pensar em terceira pessoa.
Dois goles e eu desapareci no personagem.
Quando ele serviu o chorinho, eu já era narrador.
A porta do bar rangeu e eu senti um sopro de vento gelado nas costas. Um grupinho de quatro, cinco pessoas entrou da rua e veio até o balcão, mas logo descobriu que o espaço estava fechado para um evento.
— Não tem placa na porta. Toda hora entra alguém. — Disse um amigo, ocupando o lugar ao meu lado.
— Me diz uma coisa — ele continuou, girando na mão uma taça de vinho branco. — Se você fosse resumir 2025 em uma palavra, qual seria?
— Filler. — ele respondeu a própria pergunta, e tornou o vinho num trago só. — Pra mim, 2025 foi tipo aqueles episódios de série que existem só pra preencher a temporada. Aconteceu muita coisa, mas ao mesmo tempo, não aconteceu nada.
— E o que você espera do próximo episódio? — devolvi.
— Quero decidir se fico em Berlim ou se vou embora.
— E a decisão depende...?
Ele olhou em volta, respirou fundo e disse:
— Se eu conhecer alguém por aqui, eu fico. Se eu conhecer alguém de fora, eu saio.
— Então, meu amigo... — concluí, levantando pra ir ao banheiro — seu próximo episódio não é decidir onde morar. É conhecer alguém.
Ao atravessar o salão, fui interceptado por uma amiga, que me chamou de lado pra contar algo em privado, toda risonha e envergonhada.
— Então... — ela cochichou — eu acho que conheci alguém!
Arregalei os olhos.
— Lembra do café que a gente foi no meu aniversário? Tinha um australiano no balcão, não tinha?
Claro. O australiano barbado.
— Já saiu com ele?
— Ainda não... meu plano inicial deu errado.
Ela voltou ao café logo antes do fim do expediente, mas descobriu que ele não trabalhava no turno da tarde.
— Ué, então volta lá de manhã e chama ele pra sair.
Ela me olhou com espanto, como se eu tivesse proposto uma barbaridade.
— Não é assim que funciona! Qual é a graça?!
— Você já deu indiretas?
— Eu fui ao café três vezes em uma semana... e sempre que eu vou, falo alguma coisa pra ele além do pedido. O que mais eu posso fazer?!
— Entendi... — eu disse. — Você quer beleza incidental. Não apenas beleza intencional.
Pedimos mais dois drinques e eu ilustrei o conceito por meio de uma historinha de viagem:
Anos atrás, fui com minha namorada a Roma, e obviamente não podíamos perder a oportunidade de conhecer o Vaticano.
As filas eram enormes e o passeio, embora fascinante, parecia não ter fim.
Entre galerias e criptas e torres, num dado momento atravessamos uma porta que dava numa multidão impenetrável de turistas.
— Mas que inferno! — rugiu minha namorada. — Por que essa galera não anda?!
Cutuquei o braço dela.
— Anda, vamo logo!!!
Cutuquei de novo e apontei para o teto.
Ela parou, levantou a cabeça e, num estalo, finalmente entendeu onde estava.
Na vida existem dois tipos de beleza: a intencional e a incidental.
A beleza intencional é ver aquilo que quer ser visto. É a beleza sólida de um plano bem executado; de uma viagem muito bem planejada; do mármore esculpido de uma estátua renascentista. É a beleza de assistir a um filme para o qual você comprou o ingresso.
Já a beleza incidental não tem nada de garantida. Pelo contrário, ela é pra lá de escorregadia. Ela acontece no aqui e no agora, diante dos seus olhos, e depois desaparece pra sempre. É a beleza de um fio de perfume que desenterra todo um capítulo da sua vida que você nunca mais revisitou. É a beleza de perder um voo e acabar pegando dois trens e três ônibus pra chegar no mesmo lugar. A beleza de sentir cheiro de pipoca, levantar a cabeça e dar de cara com um cinema.
Nessa cena, a beleza intencional obviamente era a Capela Sistina. Mas o que seria dela sem a beleza incidental do ataque de nervos da Letícia?
Desde aquela tarde, não consigo pensar no Juízo Final sem ouvir: Anda, vamo logo!!!
Chequei o relógio: dez horas.
Às onze, parei pra conversar com uma amiga que passou meses fora da cidade depois que o namorado terminou com ela. Ninguém sabia muito bem como ela estava.
— Cheia de energia! Café na terça que vem?
Às onze e meia, cumprimentei um amigo que chegou tarde, vindo de outra festa.
— Precisamos sair nós quatro! — ele disse, depois de contar que estava oficialmente namorando.
Quando deu meia-noite, todos os abajures se apagaram. Restou apenas uma arandela ao lado do aniversariante e de sua namorada.
Alguém puxou um parabéns e, no fim, rimos sobre como cada um ali conhecia a mesma pessoa por um nome diferente.
— Obrigado — ele iniciou o discurso. — Obrigado por vocês estarem aqui, comemorando comigo esse dia tão especial.
Bilbo?
Seus braços, cruzados atrás das costas, pareciam inquietos, talvez passando um anel de uma mão à outra. Seu olhar parecia afiado; sua voz, estranhamente serena. Sim, estes eram seus cumprimentos finais. Em breve, ele desapareceria pra sempre; partiria em busca das aventuras que de noite lhe tiram o sono e de dia lhe fazem sonhar acordado; partiria rumo a um lugar sem notícias, sem notificações, mas repleto de novidade.
Vai, pode ir, anda logo!!!
— E quanto a essa moça aqui do meu lado... — ele puxou a namorada pra perto. — Eu te conheci aos trinta e nove... e ainda não acredito na minha sorte. Que alegria poder celebrar esse momento ao seu lado. Eu te amo!
E finalizou dando-lhe um beijo sob o aplauso dos convidados, que, tão logo acenderam-se as luzes, saíram em busca de seus casacos e luvas e cachecóis, e fizeram fila pra se despedir do anfitrião.
— Você podia fazer igual a ele — comentou minha namorada, enquanto caminhávamos de volta pra casa. — Chamar o pessoal num barzinho assim pra comemorar seu próximo aniversário importante.
Eu podia mesmo.
Mas ainda faltam oito anos para os meus quarenta.
É muito cedo pra pensar na festa.
Eu podia estar matando, roubando ou fazendo publi de bet, mas aqui estou, na humildade, pedindo pra você compartilhar essa publicação com alguém especial. Um amigo, um parente, um ex que você não esquece, um crush que já esqueceu de você. E se você quiser receber as publicações da Solário por email, basta se cadastrar clicando no botão Subscribe. A Solário é gratuita e escrita por humanos, para humanos. Sem agenda oculta e sem IA.