Conversa fiada
Na minha teologia, o inferno não é um abismo de nove andares que fede a carniça e treme com os gritos da danação.
Nada disso.
Após a morte, primeiramente os pecadores são levados a uma boa alfaiataria, onde podem escolher um traje noturno do seu agrado.
Para os homens, há o terno de três peças e o smoking — ambos com diversas opções de lapela, botão e caimento.
Já para as mulheres, o catálogo inclui vestidos, saias, conjuntinhos elegantes e toda sorte de acessórios e joias.
Dizem que o diabo teve a ideia de receber seus prisioneiros com um banho de loja quando começou a aparecer muita gente de Crocs.
Quando ficou sabendo, Deus não quis ficar pra trás e logo mandou padronizar a vestimenta do paraíso: batas brancas, calças de linho, sandálias. É que lá em cima é sempre dia.
Enfim, de volta ao inferno: uma vez bem arrumados, os pecadores atravessam o rio numa barca e vão parar em frente à ópera, onde lhes aguarda o segundo passo do sofrimento eterno: um concerto.
E que concerto, meus amigos.
Liszt, então Beethoven, depois Chopin e, por fim, um pouco mais de Liszt. Não há quem não se emocione.
Findados os aplausos, os pecadores deixam o auditório e adentram o grande salão, onde se deparam com um luxuoso coquetel.
Enfeitiçados pelos brindes e os charutos e toda a beleza de mil candelabros, eles sequer notam quando, uma por uma, todas as portas do salão são trancadas.
— E por ali eles vagam — disse Virgílio — entre sombras e falsas cortesias. Smalltalk e networking: assim será o resto de seus dias.
Na sexta passada, o grande poeta de Roma me levou numa viagem ao inferno. O intuito era me mostrar os horrores que me aguardam caso eu não parasse de escrever coisas feias sobre os outros.
Mas eu ainda não estava convencido. Até o momento, aquela me parecia uma bela noite.
— Veremos — disse Virgílio, abrindo um sorriso áspero.
Me encaminhei ao bar pra pegar uma tacinha de champagne, mas no caminho fui abordado por um velho bêbado.
Ele disse duas, três coisas incompreensíveis e então insistiu em me mostrar fotos de sua recente viagem ao sul da França.
— O picotin blanc do Vale do Rhône... você nunca provou nada igual. Vou te falar: é um dulçor, uma maciez... — ele refletiu, baforando na minha cara.
Tentei me desvencilhar, mas o sujeito ia folheando a galeria do celular e mostrando foto atrás de foto.
A vinícola, o hotel, a degustação, o jantar.
— E o essspumante? Você não acredita no essspumante que eles fazem por lá...
A cada "s" ele borrifava um essspumante inteiro na minha cara.
Olhei para Virgílio, que apenas ergueu a taça e sorriu.
Enquanto isso, na parede oposta do salão, notei que havia dois rapazes jovens, envolvidos no que parecia ser uma conversa leve e descontraída.
Larguei o velho falando sozinho e fui andando naquela direção.
O poeta, notando minha intenção, alertou:
— Quem este rumo trilha, cairá numa terrível armadilha.
Mas eu, um triste e estúpido pecador, não escutei suas palavras. Quando descobri a cilada, já era tarde demais.
Um dos dois rapazes era fundador de startup; o outro, influenciador de produtividade pessoal no LinkedIn.
O tema da noite era inteligência artificial.
— But AI — disse o startupeiro, mastigando um canapé de atum. — now with AI — ele continuou, enxaguando a boca com um belo gole de picotin blanc. — and then of course: AI.
Eles falavam e falavam sem parar, tecendo mil sonhos fantásticos de um planeta-autômato em que cada átomo é empregado na geração de valor para o acionista. Falavam de podcasts e de stand-up comedy, do Elon Musk e das férias em Bali. Eu queria vomitar, queria sair correndo, mas não conseguia encontrar uma deixa, uma válvula de ejeção, nada.
Quando finalmente consegui me evadir, eu já me sentia tão drenado que só queria me apoiar num canto e folhear o celular.
Mas no salão do inferno não há cantos.
E quando você ousa interromper o networking por um instante que for, a mais maligna das vozes ecoa na sua cabeça:
— Anda, vagabundo; circula, se apresenta, puxa assunto; tem um monte de gente interessante aqui hoje.
Voltei a perambular, mas dessa vez sem rumo, feito uma alma penada.
Rondando a mesinha de petiscos, reparei numa garota que parecia não pertencer àquele ambiente. Mesmo sabendo se tratar de alguma vigarice do meu terrível captor, fui até ela e puxei assunto:
— Muito bom esse canapé de atum, né?
Pra quê?
A garota logo se revelou a própria ministra do inferno responsável pela caixa de comentários do Instagram.
Foi quase meia hora de palestra sobre privilégio branco, masculinidade tóxica e sofrimento animal.
Era penitência atrás de penitência.
A tortura acabou apenas quando Virgílio apareceu e começou a falar em versos. Nem a free-the-nipple tinha saco pra poesia.
Exausto, corri até uma das portas. Esmurrei. Gritei por ajuda, mas nada. Que inferno!
Nisso, senti alguém cutucando meu braço. Virei pra trás e dei de cara com uma mulher de cabelos longos e negros, trajando um belíssimo vestido carmim:
— Você sabe onde fica o banheiro? — ela perguntou.
Olhei em volta e não vi nada. Quando virei novamente pra responder, a mulher havia desaparecido. Em seu lugar, restou uma necessidade recém-descoberta de mijar.
Procurei Virgílio e encontrei-o assaltando a mesinha de petit fours. Falei que precisávamos ir embora imediatamente. Que eu tinha aprendido minha lição. Que eu jamais voltaria a pecar.
Sem pressa, ele empurrou um vol-au-vent de camarão pra dentro, limpou a mão na calça, e respondeu:
— Fique tranquilo, meu irmão. Daqui a pouco eles se vão.
E a voz maligna riu alto, gargalhou no meu coração.
Sim, aquele era meu lugar. Entre os hereges e os glutões, os avarentos e os falastrões. Sofra, infeliz!
Eu ia rodopiando pelo salão, esmagado pelo meu destino cruel, trocando figurinhas com quem quer que cruzasse o meu caminho.
Um desempregado passou meia hora buzinando na minha orelha que nós pagamos imposto demais.
Na sequência, um milionário veio reclamar da mesma coisa.
Um DJ veio me explicar a diferença entre techno, house e trance.
E quando eu já não conseguia nem mais parar de pé e levantei a cabeça para suplicar por piedade, notei que as paredes do salão tinham começado a descascar.
De longe, vi o velho bêbado parado ainda no mesmo lugar, mas ele era apenas cabeça — seu corpo havia desaparecido.
Os majestosos candelabros se desfaziam em morrinhos de pó dourado no chão da ópera.
O próprio Virgílio era apenas uma mão segurando uma taça de vinho.
E então fui tomado pela escuridão.
Não sei quanto tempo se passou. Talvez apenas um instante, talvez uma vida toda.
Mas o que me trouxe de volta foi uma melodia.
Um si, si, si... oitavado, hesitante, tenso.
La campanella.
Quando abri os olhos, eu estava num concerto.
Lá na frente, o pianista martelava o clímax da canção, efusivo, apoteótico.
Olhei em volta e vi uma plateia lotada de homens e mulheres muito bem vestidos.
Então veio a escala final, a subida, os golpes fatais da melodia de Paganini, e a explosão de aplausos.
Ao meu lado, vi Letícia e mais dois, três amigos.
Nenhum sinal de Virgílio.
As luzes se acenderam e eu, ainda tonto, levantei pra me esticar. Atrás do piano, um janelão emoldurava a nevasca prateada que polvilhava a noite de Berlim.
Nisso, um dos amigos virou pra Letícia e perguntou:
— Vocês vão ficar pro coquetel?
Eu podia estar matando, roubando ou fazendo publi de bet, mas aqui estou, na humildade, pedindo pra você compartilhar essa publicação com alguém especial. Um amigo, um parente, um ex que você não esquece, um crush que já esqueceu de você. E se você quiser receber as publicações da Solário por email, basta se cadastrar clicando no botão Subscribe. A Solário é gratuita e escrita por humanos, para humanos. Sem agenda oculta e sem IA.