Fone com fio
No fim de janeiro, viajei a Londres pra conhecer o pessoal do meu novo trabalho. O voo ia decolar cedinho, mas por conta de uma tempestade de gelo, ele foi remarcado três vezes e partiu de Berlim com quase oito horas de atraso.
Sentado no avião depois de todo esse estresse, decidi ouvir música. Enfiei a mão no bolso pra pegar o fone, e para o meu desespero, dei no vazio. Foi aí que bateu: avoado do jeito que sou, eu devia ter perdido o maldito fone em algum canto do aeroporto durante o vai-e-vem matinal.
Bom, e agora? Sem fone não dá pra trabalhar. E pior: não dá pra ouvir música.
Como eu ainda tinha esperanças de encontrá-lo no achados e perdidos do aeroporto, optei por uma solução provisória: chegando em Londres, fui à loja da Apple e pedi um fonezinho branco com fio daqueles que costumavam vir de graça com o iPhone, sabe? O vendedor me lançou um olhar consternado, mas logo entendeu que eu falava sério.
— Dezenove libras. Cartão?
Ainda na porta da loja, eu desembalei meu novo brinquedo, conectei ao celular e botei pra tocar a última música que eu tinha ouvido de manhã: o Concerto para Piano N.2 do Rachmaninoff — ou Rach 2, para os íntimos.
O som em si não era ruim — o problema era conseguir ouvi-lo. A falta de cancelamento de ruído e o encaixe frouxo fazia com que o barulho da rua se sobrepusesse à música.
Tentei enfiar os fones mais pra dentro.
O lado esquerdo colaborou, mas o direito continuava meio desengatado e insistia em escorregar pra fora. Fui caminhando e experimentando, até que finalmente encontrei uma posição na qual a música era audível e o fone ficava no lugar.
E então bateu um vento.
A aba do meu casaco roçou no fio e puxou logo os dois lados do fone num golpe só. Num acesso de fúria, arranquei o fone do celular, enrolei o fio e soquei de volta no bolso.
Como a gente vivia com isso dez anos atrás???
Momentos depois, já deitado na cama no hotel, me veio a mais ridícula das preocupações: o que o pessoal da empresa vai pensar de mim amanhã quando me verem com esse treco na orelha?
Justamente o cara que veio pra liderar o time de tecnologia — o cara que era pra ser um visionário, um futurista — aparece aqui de fone com fio. Era um baita risco reputacional. Mas fazer o que? Não tinha mais volta. O que me restava era vestir esse novo artefato de personalidade com orgulho e intenção. O fone não era um acidente, um acaso, uma relíquia. Era uma afirmação. Do que? Bom, isso eu ainda ia desvendar.
Dia seguinte, oito horas da manhã, lá estava eu no metrô rumo ao escritório, de bolsa no ombro e fone com fio, tentando ouvir o Rach 2.
Trilhos, freios, trens vindo na direção contrária. Anúncios eletrônicos, pessoas embarcando e desembarcando. Eu ouvia tudo menos a música. O concerto foi reduzido a um conjunto de fortíssimos intercalados com longos momentos de silêncio.
Desci do metrô em Waterloo, caminhei até o escritório e me apresentei para o time. Me senti super bem-recebido. Não teve nenhum comentário sobre o fone, embora quando ele estava na minha orelha, eu sentisse o tempo todo que me olhavam meio de esguelha. Mas não me deixei abater. Usei o fone pra fazer reuniões, escutar áudios, ouvir música. Desemaranhei os nós com naturalidade e indiferença. Voltei pro hotel à noite sentindo que aquele novo objeto, por mais inconveniente que fosse, já fazia parte de mim.
E assim foi passando a semana: todos os dias começavam com Rach 2 no metrô, continuavam com um sem-fim de compromissos no escritório, e terminavam com Rach 2 no caminho de volta.
Quando me toquei, já era dia de ir embora.
Peguei o trem para o aeroporto e, como de praxe, botei o fone, liguei o Rach 2 e fui tentando ouvir. Mas o trem veio especialmente lotado. Uma barulheira insana. Apertei os fones contra a orelha, mas mesmo os trechos mais poderosos chegavam em mim como meros zumbidinhos.
E foi nesse momento que me lembrei do meu avô.
Meu avô ficou surdo aos trinta e cinco anos.
Otosclerose, igual o Beethoven.
Me recordo de uma tarde na casa dele, quando pegamos um disco de vinil empoeirado do Bolero do Ravel, colocamos na vitrola e sentamos no sofazinho de couro pra escutar.
Bom, eu pra escutar; ele pra... sei lá... acompanhar?
O Bolero tem uns quinze minutos de duração. Começa pianinho e vai crescendo e crescendo até chegar no êxtase final.
A meio caminho, meu vô vira pra mim e diz:
— Presta atenção. Vai entrar a clarineta.
E então ela entrou.
Como ele sabia? Como ele podia saber? Não tinha um indicador de tempo. Nenhum som chegava até o ouvido dele. Como???
Quando pensei nesse momento, eu desisti de apertar os fones. De buscar os sons que me escapavam.
Eu aceitei ouvir o Rach 2 como a minha mente conseguia tocá-lo: uma baguncinha que emaranhava melodias de diferentes trechos da música, misturando movimentos e passagens e instrumentos. E de alguma forma maluca, aquilo fazia sentido.
O Rachmaninoff compôs esse concerto após anos de depressão. Foi sua re-estreia como compositor.
Eu gosto de pensar que o primeiro movimento transmite o entusiasmo da vida, mas também o caos e o desassossego.
O segundo movimento então pega essa ambiguidade e a transforma numa eterna repetição — um Sísifo, uma prisão. Se a vida é só isso, ela vale a pena?, ele postula.
E o terceiro movimento traz a resposta: ela vale sim!
Ao contrário do Beethoven, que sempre buscou ascender ao divino, o Rachmaninoff finca o pé e se declara humano, apenas humano e nada mais que humano. Aqui vivemos, aqui ficaremos! É maravilhoso. E na bagunça que aquilo tinha virado na minha cabeça — reflexão, tristeza, afirmação — parecia que toda essa história se comprimia e tocava ao mesmo tempo.
Cheguei ao aeroporto em êxtase.
Assim como o voo de ida, o de volta teve um longo atraso.
Pousei em Berlim já quase meia-noite e sob uma nevasca intensa.
Não consegui táxi, então peguei o trem.
Da estação até em casa era pra ser uma caminhada de dez minutos, mas com o chão coberto de gelo, eu só conseguia avançar em passinhos minúsculos, feito um pinguim.
Não tinha ninguém além de mim na calçada e a neve abafava os sons dos poucos carros que passavam na avenida.
Mas o som da música me fez companhia até a porta de casa.
E não saiu da minha cabeça desde então.
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