O fio da meada

O fio da meada
Photo by Marita Kavelashvili / Unsplash

Essa semana eu escrevi umas cinco crônicas e picotei todas elas.

A primeira eu tinha chamado de Nó em pingo d'água. Era sobre viver a vida sem interpretações — apenas observando o mundo exatamente como ele acontece diante dos nossos olhos.

Nada de Susan Sontag ou de firulagens da fenomenologia: eu pensei nesse texto como uma homenagem a meu amigo Pedro, um ávido observador que vive me alertando para o meu excesso de interpretação.

O texto ia bem, mas tinha uma falha estrutural gravíssima: o principal arco narrativo foi construído em cima de uma metáfora futebolística, o que eu achei completamente fora do personagem (o personagem sendo eu), e desalinhado com o contexto (a copa é apenas daqui a três meses, e convenhamos, ninguém tá nem aí).

Enfim, depois de muito pensar e experimentar e remendar, eu mandei o Nó em pingo d'água pra puta que pariu e comecei outro texto do zero.

Essa segunda crônica eu chamei de Memorabília. A inspiração foi o apartamento onde minha amiga Joana cresceu: uma quitinete minúscula onde mal cabiam ela, a mãe e os quatro salsichas (Fleco, Fleca, Flick e Flock), e cuja sala era inteiramente ocupada por um piano de cauda. Não dava nem pra atravessar da cozinha ao banheiro sem ter que se espremer entre o teclado e a parede.

Ora, numa família onde a música sempre foi tudo — absolutamente tudo — aquilo não era um erro; era uma materialização. Eu achava delicioso passar a tarde naquela sala, me espremendo pra cá e pra lá, a dois palmos daquele colosso de madeira preta, sempre ouvindo e tocando e respirando música.

O problema com esse texto? Bom, o problema é que eu estou reformando meu futuro apartamento e, no meio dessa semana, o empreiteiro declarou falência e abandonou a obra.

Enterrado em prejuízos e dores de cabeça, fiquei sem nenhum tesão pra falar de mobília.

Evitativo e escapista que sou, logo parti para a terceira crônica, que batizei de O fio da meada. O assunto? Bom, ciente de que o tempo estava se esgotando, decidi sentar pra escrever sobre como eu costumava sentar pra escrever.

Veja: geralmente, meus textos começam com uma única frase. O fio da meada, por exemplo, começou com a frase:

‌Geralmente, meus textos começam com uma única frase.

Todo o resto — pra cima e pra baixo — veio depois.

Nessa abordagem, a crônica vai surgindo não como um embrião — linear e programático —, e sim como uma floresta, cobrindo o papel de forma difusa e desconexa, em tufos e arbustos, copas frondosas e galhos retorcidos, até que, de repente, tudo aquilo parece uma coisa só (se olhado de longe; daqui de perto continua sendo um monte de planta).

O problema? Depois de uma hora caminhando nessa direção, a tal da floresta ainda era um baita descampado. Eu não conseguia semear nada que prestasse, e o relógio não parava de me azucrinar.

Foi aí que, num lampejo de boa vontade (e de escapismo, novamente), dei à luz a quarta crônica da semana: Anticristo.

Minha ideia aqui era falar de falsos profetas. Não que eu seja um sujeito religioso, mas eu não resisto a criar um bololô moral e ver onde ele dá.

Minha ideia aqui era promover uma disputa: um anticristo consciente de sua vigarice versus outro inconsciente — ou seja, que acreditava piamente na própria epifania. Quem seria o inimigo mais perigoso para a humanidade?

Mas o problema logo ficou claro: eu pari essa ideia tarde da noite, fui dormir, e quando acordei ela me pareceu terrivelmente difícil de executar.

Quem, como e onde seriam esses profetas? Como se daria a disputa entre eles? Quem seriam os súditos de cada lado? Exausto e gripado, levantei a bandeira branca para o excesso de ambição.

E assim chegamos à noite de ontem, quando eu sentei pra escrever a que viria a ser a quinta e última crônica: Tremenda justiça.

Ainda mergulhado nos ecos do texto anterior, me propus a explorar uma dúvida que paira na minha mente já de longa data, desde que eu era uma criança atormentada por pesadelos com prisões:

O que você preferiria: ser punido por um crime que você cometeu, ou por um que você não cometeu?

Muito a dizer, muito a refletir. Menções importantes à minha mãe e a uma amiga a quem fiz essa pergunta ainda ontem, e cuja resposta foi absolutamente fascinante.

Esse foi o texto que chegou mais perto de me convencer, mas o tempo se esgotou antes que eu conseguisse domar os muitos rumos que isso podia tomar e decidir um caminho.

Lixo.

Pra ser sincero, em vez de jogar minhas crônicas na lixeira do computador, eu tenho uma pasta chamada Lixo onde jogo tudo aquilo que eu quero que suma, mas não que desapareça.

E agora, faltando menos de uma hora para meu prazo inegociável de publicação, o que me restava senão revirar o lixo, escolher a menos podre, dar uns tapas pra afastar as baratas e ir adiante com o que desse?

E a escolhida acabou sendo O fio da meada.

Sim, a crônica que você está lendo já esteve morta e voltou à vida.

Pior: ela já sabia que iria morrer e retornar quando ainda nem tinha sido escrita. Estava tudo codificado desde o começo, na frase-mãe que deu origem a cada palavra desse texto.

Falta conteúdo? Falta. Peço desculpas, caro leitor.

Mas o que lhe falta em conteúdo, sobra em charme profético. Isso tem que valer alguma coisa.

E com isso eu me despeço até a semana que vem — quiçá uma semana com menos angústia e mais soberania.

Mas se tudo der errado, há pelo menos uma coisa que me consola: as outras quatro crônicas estão no lixo, mas ainda têm sinais vitais. Tem alguma outra que mereça a ressurreição?


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