Otávio, um homem de sorte
Tem gente pra quem a sorte sorri — e tem gente pra quem ela cai na risada.
Otávio era um rapaz desse segundo tipo; coisa maluca de se ver.
Quando ele chegava atrasado no ponto, o ônibus atrasava também.
Se o adversário pegasse um três de paus, ele puxava manilha.
Até a chuva parecia se curvar à aura de Otávio e esperava que ele entrasse em casa pra cair.
Ele era assim desde pequeno.
A verdade é que a sorte de Otávio vinha de berço: ele nasceu numa longa linhagem de sortudos.
Tudo começou com Marta Maria Madalena Muñoz, sua trisavó por parte de pai.
Órfã ainda na adolescência, Marta ficou aos cuidados do meio-irmão, Felício, que tão logo se viu em posse da casa da família e da pequena herança, deu um jeito de perder ambos no baralho.
Sem deixar nem mesmo um bilhete, Felício foi ao porto com o dinheiro que lhe restava no bolso e se mandou pra Europa.
Marta esperou três dias pelo irmão.
No quarto, foi despejada e partiu sozinha rumo à cidade grande.
E foi aí que a sorte veio a seu encontro pela primeira vez.
Tão logo chegou, fez amizade com uma cantora e arranjou um bico de dançarina.
No fim do mês, ela já era praticamente uma celebridade na Rua do Gasômetro.
Viveu muito. Talvez até demais.
Aos dezessete anos, ela enfim se entregou a um boiadeiro chileno que beirava os setenta.
De anel no dedo e sobrenome novo, Marta foi viver numa fazenda no pé dos Andes.
E desejou a morte assim que pôs o pé.
Por sorte, a provação durou pouco: ao cabo de duas semanas, o velho caiu duro. Dizem que não tomou o remédio do coração. Ou tomou demais. Vai saber.
Mas veja só que loucura: Marta já estava de mala pronta pra voltar pra cidade, quando ficou sabendo que descobriram o segundo maior estoque de níquel das Américas, ali, enterrado sob a fazenda.
A jovem precisou de um minuto pra digerir a notícia, e então tomou a grande decisão de sua vida: desfez as malas, arranjou um par de botas e um capacete, e mandou cavarem a mina.
Em seu aniversário de dezoito, ela já havia se tornado Doña Marta, a mulher mais poderosa dos Andes.
Felício, que a essa altura levava a vida dando golpes de amor em senhoras de idade no interior da França, reconheceu a irmã no jornal, em foto ao lado de figurões da política.
Sem pensar duas vezes, o rapaz pegou o primeiro navio rumo ao Chile.
Apareceu na fazenda com os olhos rasos de arrependimento e saudades. Pediu perdão por todos os seus pecados.
Marta deu-lhe um abraço terno e depois meteu-lhe dois tiros de garrucha no peito.
Mandou descartar o corpo ali mesmo, no esgoto do níquel.
Dali em diante, a sorte da família estava lançada.
Geração após geração, todos vinham ao mundo sortudos como a matriarca.
Eram apostas malucas que davam certo.
Doenças incuráveis que desapareciam da noite pro dia.
Amores impossíveis com finais felizes.
A saga da família era milagre atrás de milagre.
E quase cem anos depois, lá estava Otávio, a quem acompanhamos nessa belíssima noite de primavera, muito bem vestido e bem-humorado, a caminho do elegantíssimo Bar Celona.
O pobre rapaz ainda não sabia, mas essa seria a noite em que ele romperia com mais de um século de sorte na família Muñoz.
— Otávio, oito horas, duas pessoas — ele anunciou.
Eram sete e cinquenta e seis.
A garçonete o levou à mesa, e ele aproveitou pra pedir um Gimlet enquanto aguardava Vitória.
Vamos falar sobre Vitória.
Veja: primeiros encontros são sempre especiais.
Mas esse era um caso à parte.
Os dois se conheciam da escola, mas naquele esquema do sei quem é. Eles nunca tinham se falado até a quinta anterior, quando, voltando do escritório, Otávio atravessou uma feirinha de arte e uma barraca de cerâmica chamou sua atenção.
— Pera... você é o Otávio, né? — disse uma voz doce de sotaque caipira.
Ele virou pra ver quem era e seu queixo nunca mais fechou.
— Vi... Vitória, né?
Os dois conversaram por horas, ali mesmo.
A feirinha fechou, os outros artistas sumiram com suas barracas, mas Otávio e Vitória continuavam lá, colocando em dia um papo que parecia atrasado há tanto tempo.
E foi ali mesmo que Otávio aceitou o destino: era com Vitória que ele queria ficar.
Chegando em casa, ele abriu a agenda e desmarcou todos os encontros com todas as garotas.
Ligou no Bar Celona e cancelou todas as reservas — menos a da quinta-feira, que ele manteve para levar sua querida Vitória.
Desde então, os dois conversavam dia e noite, noite e dia.
Não havia um fio de dúvida no coração de Otávio — nem de dúvida, nem de cautela.
— Essa é a garota da minha vida — ele contou a Matias por telefone. — É ela. Eu sei que é ela!
Matias ficou feliz pelo amigo quando ouviu a notícia, mas tinha dificuldades em demonstrar alegria.
Naquele momento, ele estava no hospital, aguardando o horário de visita da UTI. Sua mãe não estava nada bem.
O médico pediu pra conversar com meu pai, ele contou a Otávio depois de ouvir os suspiros de paixão. Tô preocupado.
Relaxa, meu amigo!, respondeu Otávio na maior leveza. Daqui a pouco ela sai daí. Vai dar tudo certo. Sempre deu, sempre dá!
Uma semana se passou desde essa conversa.
Otávio checou o relógio: eram oito horas em ponto.
Ele tomou um gole do Gimlet pra se refrescar.
Oito e cinco. Oito e dez. Oito e quinze. E nada de Vitória.
Otávio esvaziou o drinque num trago só e pediu mais um.
Inquieto, ele abriu a conversa com a garota, escreveu e apagou uma mensagem, e por fim enviou:
Nos fundos à direita. Camisa azul :)
Nada.
Oito e meia.
Tá chegando?
Nove.
Posso te ligar?
Nada.
Ele pediu um Boulevardier.
Depois uma Paloma.
Depois outro Boulevardier.
Era quase meia-noite quando Otávio chegou de volta em casa de camisa desabotoada, rosto inchado e vinte e sete mensagens visualizadas e não respondidas.
Ele se jogou na cama assim mesmo e passou a noite assistindo o ventilador girar.
Levantou ao primeiro fio de sol e saiu de casa do mesmo jeito que entrou.
Chegou ao ponto dois minutos antes do horário do ônibus, mas, acredite se quiser, o infeliz passou antecipado.
Otávio então tentou sinalizar pra um táxi. Dois. Três. Todos ocupados.
Puto da vida, ele saiu andando pela avenida, mas, a duas quadras do escritório, veja só: caiu um baita pé d'água. Sem aviso nem nada: apenas um trovão e uma enxurrada.
Otávio chegou à recepção todo ensopado, e quando abriu a porta, deu de cara com dois homens de macacão azul desmontando a geladeira da Coca.
O escritório estava de cabeça pra baixo.
Era gente carregando caixas pra cá e pra lá.
Mesas vazias.
Computadores desmontados.
— Você não ficou sabendo? — perguntou um colega.
E assim começou a primeira sexta-feira de Otávio como um homem desprovido de sorte.
No sábado, ele escorregou na calçada e fraturou o dedinho.
No domingo, seu time tomou quatro a zero em casa contra o lanterna do campeonato.
Na segunda, ele comeu um lanche na rua e deu ruim. Passou o dia no banheiro, estragado.
Na terça, caiu a luz e não voltou até quarta à noite.
Enfim, quando chegou quinta-feira, Otávio decidiu não sair de casa. É mais seguro passar o dia na cama, ele pensou.
Mas assim como a sorte, o azar passa pelo buraco da fechadura e a gente não consegue se esconder dele embaixo das cobertas.
O sol ainda estava baixinho no horizonte quando tocou o telefone. Era Matias.
O velório começou na hora do almoço.
— Eu sinto muito, meu amigo. — disse Otávio.
E sentia mesmo.
Pela primeira vez na vida, ele sentia de verdade.
Ele sentia pela mãe do amigo, mas também sentia o medo de perder sua própria mãe. Sentia medo de ficar doente. De se envolver num acidente. De não encontrar outro emprego. De viver nesse eterno desassossego.
E aquilo borbulhou a tal ponto dentro de Otávio que, pela primeira vez desde a infância, ele deixou escapar uma lágrima. Seus lábios tremiam. Ele tentou segurar, mas era mais forte que ele. Então, sentado numa banqueta diante do caixão, ele enterrou a cara nas mãos e se acabou de chorar.
— Você tava certo. — disse Matias com uma leveza inesperada, abraçando o amigo por trás. — Vai ficar tudo bem.
Otávio levantou o olhar em sua direção.
— Talvez não hoje. — continuou Matias. — Bom, definitivamente não hoje. Mas vai.
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