Regras condominiais
O grupo de WhatsApp do prédio faz aflorar o meu tirano interior.
Uma hora é a vizinha do térreo fazendo campanha pra proibir xixi de cachorro na calçada. Sim, na calçada pública, que não pertence ao prédio.
Outra é um cidadão lá da torre três propondo instalar câmeras na salinha do lixo pra flagrar quem estiver descartando plástico na lixeira orgânica. O mesmo cidadão que, pouco antes, se opôs à instalação de câmeras de segurança nas entradas do prédio, alegando violação de privacidade.
Não consigo acompanhar esse papo sem questionar se a democracia é, mesmo, a melhor opção. Me vêm as palavras de Joseph Stalin: No futuro haverá menos russos, mas serão russos melhores.
Antes de se tornar um ditador sanguinário, talvez Stalin fosse apenas um menininho alegre e brincalhão, que deu o azar de morar no andar de cima da síndica de seu prédio — uma velha rouca com uma verrugona peluda no buço e tolerância zero pra barulho.
— Besarion Jughashvili! — grita a velha, esmurrando a porta dos Stalin. — Esse teu filho pisa forte demais! Ou ele veste pantufas, ou eu lhe arranco os pés!
E assim, o pequeno Joseph toma a primeira coça do dia.
A família então senta para o café e, sem querer, Besarion faz um trocadilho. O filho cai na gargalhada.
Ato contínuo, as paredes começam a tremer com passos de rinoceronte marchando escada acima.
— Besarion Jughashvili!!! — o berro ecoa pelo hall. — Esse teu filho ri alto demais! Faça-o calar a boca ou mandarei Mikhail Romanovich vir ainda hoje para despejá-los!
E lá vem a segunda coça.
Enclausurado e amordaçado em seu cubículo, o pequeno Joseph passa os dias sentado à janela, sonhando.
Um dia — sim, esse dia virá! — quem atravessar o hall do sexto andar do Ed. Jardim Crimeia verá na porta a placa dourada: Joseph Vissarionovich Stalin — Síndico.
Desse e de todos os prédios da Rússia.
Talvez eu também seja síndico um dia. Há quem diga que eu levo jeito pra coisa. Nesse último verão eu plantei as sementes do meu futuro estadismo.
Era fim de tarde de um belíssimo sábado e eu tinha acabado de preparar um spritz pra curtir antes do jantar, quando pipocou uma notificação no grupo do prédio:
É proibido fazer churrasco na varanda, declarava a mensagem.
A autora — vamos chamá-la de Suzy — mora com o marido numa ampla cobertura que toma duas das quatro faces do prédio, com varanda tanto para a rua como para o pátio interno.
Favor parar imediatamente ou notificaremos as autoridades.
Não sei a quem a mensagem foi direcionada, mas era meu dever cívico defender a legalidade do churrasco na varanda. E meus camaradas: o que Stalin tinha de impiedoso, eu tenho de mesquinho.
Abri meu arquivo, desenterrei o regulamento condominial, busquei o artigo que rege o uso das varandas e enviei o print no grupo:
É vedado o uso de churrasqueiras a carvão. São permitidas as churrasqueiras elétricas e a gás.
Fim de papo. Minha juristada fatal rendeu uma salva de aplausos muito maior que a patética ameaça de Suzy. Emojis de 100, de cerveja e de contrafilé.
Naquela tarde, camaradas, eu defendi o cidadão comum, que espera o ano inteiro por esses breves meses de calor. O cidadão que passa a semana na labuta sonhando com um churrasquinho. O cidadão culpado de um só crime e de um crime só: espalhar o delicioso aroma do grelhado pela vizinhança.
Saboreando a vitória, saí na varanda e ergui minha taça ao réu anônimo: Bom apetite, irmão. Bom apetite.
Passaram-se então duas ou três semanas e o outono já começava a dar as caras. Certa noite, eu estava na cozinha decidindo como preparar uma bandeja de sobrecoxa prestes a vencer, quando chegou uma mensagem de Suzy no grupo do prédio:
É proibido fazer churrasco na varanda, ela dizia, repetindo a mesma ameaça.
Sonsa ou estúpida?
Como se possuído pelo espírito da Dercy Gonçalves, já saí psicografando a resposta: Seu marido confunde a sua boca com o seu cu? Porque você só fala merda, sua velha mal-comida do caralho. Não gosta de cheiro de churrasco? Então vai na feirinha orgânica, compra uma berinjela e senta.
Mas eu respirei fundo e respondi de maneira técnica. Questionei a capacidade de interpretação de texto da boa senhora e me prontifiquei a compartilhar — e explanar — uma vez mais o regulamento.
Mais uma vitória efusiva. 💯🍻🥩!
Impelido pelo coro, parti para uma celebração afrontosa: grelhei a sobrecoxa na minha churrasqueira na varanda, fazendo questão de deixá-la bem douradinha, soltando bastante fumaça. Ficou um espetáculo.
Mas não nos deixemos enganar: eu venci a batalha, mas posso muito bem acabar perdendo a guerra.
Suzy é proprietária e eu sou um mero inquilino.
Encastelada em sua cobertura, ela certamente está mexendo os pauzinhos para mudar o regulamento.
É bem possível que, na próxima sessão, o conselho proíba de vez o churrasco. E que proíbam também o xixi de cachorro na calçada e mandem instalar câmeras na salinha do lixo.
Não posso nem dizer que sou voto vencido; eu sequer tenho voto.
Mas uma coisa posso garantir: não importa qual regra o conselho invente, eu estarei lá, firme, forte e de spritz na mão, pronto para usá-la contra os seus integrantes.
A democracia não é a primeira escolha de ninguém, mas é a segunda escolha de todo mundo. Enquanto eu não tomar coragem pra dar um golpe, vou ter que me contentar com isso.
Mas um dia eu serei síndico.
E vou celebrar com um churrascão.
Eu podia estar matando, roubando ou fazendo publi de bet, mas aqui estou, na humildade, pedindo pra você compartilhar essa publicação com alguém especial. Um amigo, um parente, um ex que você não esquece, um crush que já esqueceu de você. E se você quiser receber as publicações da Solário por email, basta se cadastrar clicando no botão Subscribe. A Solário é gratuita e escrita por humanos, para humanos. Sem agenda oculta e sem IA.