Rodízio

Rodízio
Photo by Daniel Dan / Unsplash

— Desculpa a intromissão, doutor, mas... o senhor é um homem de fé? — perguntou o cabeleireiro, enquanto prendia o avental em F.

— Não que eu saiba — respondeu F., folheando uma edição da Men's Health.

— Eu também não era — continuou o cabeleireiro, com o borrifador numa mão e o pente na outra. — Mas aconteceu um negócio que eu vou falar pro senhor... confirmou pra mim que Deus existe. E digo mais: confirmei que Deus sou eu.

F. o encarou pelo espelho.

O homem falava sério, ele concluiu, fechando a revista.

Isso não é um crente contando de uma epifania. É um maluco de verdade.

— Aquele dia — retomou o cabeleireiro — eu cheguei pra abrir o salão o que... quinze pras nove? Entrei e dei de cara com um envelope no chão. Na hora eu pensei que fosse o IPTU, mas era muito fininho. Sem remetente. Sem carimbo. Dentro, tinha uma única folha de papel. Era uma mensagem curta.

Ele pegou uma mecha do cabelo de F. entre os dedos e cortou a pontinha.

— Bom, o senhor vai achar que eu tô de sacanagem, mas eu juro por... enfim, eu juro que a carta dizia que eu tinha sido escolhido pra ser o próximo Deus. Válido a partir daquele momento, e com duração de trinta dias. Ou seja, até a meia-noite de 2 de abril de 2026.

— 2 de abril é hoje. — comentou F.

— Justamente. Faz exatamente um mês que isso aconteceu.

F. rolou os olhos:

— E antes de você, tinha outro Deus?

— Deus era outra pessoa, sim. — respondeu o cabeleireiro.

— E depois de você, vem outro?

— Isso mesmo. Parece que o divino funciona num sistema de rodízio. A cada trinta dias, troca.

— E como você sabe que você é, mesmo, Deus?

— É aí que tá. Num primeiro momento, eu achei que fosse trote. Trabalhei até o fim do expediente, fechei o salão e fui ali no Marajoara jogar sinuca com o pessoal. Cerveja pra cá, cerveja pra lá, chegou minha vez. Peguei o taco e fui estourar o jogo. Quando eu olho, encaçapei três bolas. O pessoal em volta soltou um assobio. Tá cagado hoje hein, bichão. Dei a volta na mesa pra próxima tacada. Mirei na bola 12. Caixa. Mirei na 6. Caixa. Doutor... eu fechei a partida em quatro tacadas.

— E isso te provou sua divindade?

— Naquele momento, eu achava que era meu talento pra sinuca finalmente dando as caras. Mas a noite foi rolando e eu não errava uma. Podia bater de olho fechado, de costas, tanto faz: tudo entrava. Aí quando acabou o jogo da Libertadores eu decidi ir embora pra casa. Fui caminhando pela avenida, e nisso eu reparo num casal do outro lado da praça. A menina, chorando e andando pra trás. O rapaz, berrando e indo pra cima. Pensei em ir lá fazer alguma coisa, mas o cara era grandão. E vai que tá armado, né. Então eu fiquei parado ali, assistindo aquilo. O sentimento de impotência foi me cozinhando por dentro, quando...

Ele parou pra pegar a máquina, mas antes confirmou:

— Costeleta o senhor vai querer diminuir?

— Sim, pode diminuir.

Então retomou:

— Essa impotência foi me cozinhando por dentro... até que eu fechei o olho e imaginei o sujeito estirado no chão. Coisa besta, eu sei. Só que nisso eu ouço um baque, e quando eu olho, não é que o cara tava caído com a fuça na grama e os braços enrolados atrás das costas, se estribuchando todo?!

F. mal conseguia prestar atenção. O zumbido da máquina passando rente à sua orelha o deixava todo agoniado.

— Aí pensei em chamar a polícia. Acredite se quiser: no mesmo instante passou uma viatura do meu lado com a sirene ligada, pularam dois policiais e levaram o cara preso.

Hora da outra costeleta.

— No dia seguinte, doutor, eu fui ao mercado fazer as compras do mês. Quando cheguei em casa, percebi que faltou o leite. Eu já ia voltando pro mercado, quando decidi fazer um teste: fechei o olho e pensei num engradado com seis garrafas de leite longa vida semi-desnatado. Quando abri, o engradado tava na minha frente.

— Eu não acredito em você.

— Tudo bem. Como Deus, a gente se acostuma a ouvir isso. É normal.

O cabeleireiro passou para a parte de trás, usando a máquina pra dar uma aparada nos pelinhos da nuca de F.

— Lembra do assassino que tinha fugido e tava escondido na mata? — ele perguntou, olhando para F. pelo espelho. — Foi um milagre a polícia encontrar o cara depois de semanas de fuga, logo antes dele invadir o sítio com as criancinhas, não foi? Pois é.

— Então você saiu por aí fazendo justiça?

— Justiça? Milagres!

— Do tipo?

— Teve o Vasco dando 4 a 0 no River Plate. Teve a garotinha que apareceu no Fantástico — a que se curou da AIDS, lembra? Teve também o viralata caramelo atropelado que voltou a andar. Se você viu as notícias nas últimas semanas, viu muita obra minha.

— E os bombardeios no Oriente Médio? Foi você, também?

— Eu não foquei muito em assuntos internacionais.

— O que mais você fez: pegou a Miss Brasil? Ganhou na Mega-Sena?

— Quem me dera. Depois de poucos dias como Deus, a camisa pesou.

— Como assim?

Ele devolveu a máquina na bancada, e pegou a tesoura e o pente.

— O problema, doutor.. é que o poder só funciona quando eu sei o que eu quero. Quando eu tenho certeza. Se eu olho pra televisão e mando ligar na Sportv, ela liga. Mas se eu tô em dúvida entre assistir o jogo, o jornal ou a novela, a TV fica lá paradinha.

— Não é só decidir?

— Eu cheguei num ponto, doutor... em que eu não consigo decidir mais nada. Não consigo nem abrir o armário e escolher o que eu vou vestir. Cada escolha carrega o peso insuportável de mil desescolhas. E como Deus, todas as escolhas são minha responsabilidade. Todas as que eu fiz. Todas as que eu não fiz. Eu não posso botar na conta de ninguém. O que eu quero, acontece.

— Você pode culpar os outros. Dizer que não agiram conforme a providência.

— Eu posso forçar quem eu quiser a agir conforme a providência.

— E por que você não faz?

— Porque eu não entendo a providência. Vai que eu forço a pessoa a fazer uma coisa e aí foi a coisa errada?

— Mas se você é Deus... você é a providência. O que você quer é o certo, por definição.

— Se eu quiser cortar sua garganta com essa tesoura, esse é o certo, doutor?

Os dois se encararam por um instante pelo espelho.

A sineta da porta tocou. Era o próximo cliente. Ele tomou lugar no banquinho da sala de espera e pegou uma edição antiga da VIP de uma pilha empoeirada.

— Será que o diabo funciona do mesmo jeito? — indagou o cabeleireiro, retomando o corte.

— Como assim?

— Por rodízio.

F. ignorou a pergunta e disparou:

— O que você pretende fazer com o tempo que te resta?

Já eram cinco da tarde do último dia.

— Cortar cabelo. Falando nisso, o do senhor tá prontinho.

Ele trouxe o espelho para mostrar o resultado, tirou o avental e passou o pincelzinho.

Na hora de pagar, F. retomou o assunto:

— Quem vai assumir depois de você?

— Essa é a ironia, doutor. A carta veio com um canhoto pra eu preencher com o nome do próximo Deus.

F. engoliu seco:

— E se você não escolher?

— Nesse caso, quem escolhe é o destino. Pode ser qualquer pessoa no mundo. Jovem, velho. Rico, pobre. Pode ser um sujeito de coração bom. Pode ser um baita de um babaca.

— Você já tem um nome?

— Ainda não, doutor. Aliás, foi por isso que eu comecei a contar essa história, na verdade. Por acaso... o senhor gostaria de ser Deus pelos próximos trinta dias?

F. pensou na proposta enquanto vestia o casaco e pegava seu guarda-chuva no balde ao lado da porta.

— Eu aceito. — ele disse. — Pode colocar o meu nome.

— Combinado. Vou só atender o último cliente, aí eu cuido disso.

Os dois se despediram cordialmente.

Na manhã seguinte, F. chegou cedo ao consultório e encontrou um envelope no chão.

Seu coração bateu forte.

Ele estralou os dedos e a nuca, esfregou as mãos, respirou fundo e parou pra se olhar no espelho do corredor.

Os cabelos brancos, agora muito bem cortados, emolduravam seu rosto ossudo e imponente.

Dr. Fábio Foco. Neurocirurgião. Deus.

Aquilo lhe caía muito bem.

Sim, ele tinha grandes planos para o próximo mês.

Mas, infelizmente, o envelope era só o IPTU.


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