Longevidade
— Você tem o que... trinta e dois? — perguntou K., enquanto acendia um cigarro.
— Trinta e um.
— Desculpa te dizer isso... — ele disse, soltando um sopro de fumaça. — Mas você parece trinta e dois.
K. e eu estávamos à espera de uma mesa no Golden Fleece, um pequeno restaurante georgiano no centro de Berlim. Tão pequeno que a garçonete pediu que a gente aguardasse do lado de fora.
— Cinco, dez minutinhos. — ela tinha prometido.
Era meados de abril e fazia um frio danado, incomum pra época.
Tinha chovido forte naquela tarde, e o asfalto molhado refletia as luzes vermelhas e douradas da cidade.
Do outro lado da avenida parou um bonde, e dele desembarcou V., o terceiro e último membro do nosso pequeno comitê.
A gente costumava se reunir ao menos uma vez por mês pra comer khachapuri e botar o papo em dia.
— Tão te pagando hora extra? — perguntei ao cumprimentá-lo.
— Tá uma loucura aquele escritório — V. suspirou — Não saí nenhum dia antes das nove essa semana. — Ele parou pra checar uma notificação no celular. — Enfim, vocês conseguiram mesa?
Nesse instante, a porta do restaurante se entreabriu, revelando o rosto redondo e sorridente da garçonete:
— Três pessoas? Podem vir!
Ela nos conduziu pelo salão principal, depois através de um corredor estreito que dava numa escada em caracol, pela qual descemos até o porão. Então, entre mesas, barris e portas sem identificação, caminhamos até uma salinha pequena e toda revestida de madeira. Nossa mesa ficava no canto esquerdo, apertadinha entre o cabideiro e a calefação.
— Cerveja? — a garçonete perguntou, enquanto a gente ainda pendurava os casacos.
— Não sei, cerveja? — perguntou V.
— Cerveja. — confirmou K.
— Pra mim, não. — respondi, com dor no coração.
Os dois me lançaram um olhar de interrogação.
— A maldita maratona. — expliquei.
A garçonete deu risada e me ofereceu o refrigerante da casa.
Sabor estragão.
— Muito comum na Geórgia — ela comentou.
Fiquei sem jeito de dizer não.
— Quando vai ser a maratona? — perguntou K.
— Setembro.
— Animado?
— Ô.
— O que é estragão? — indagou V., puxando o celular. — Caralho, não tem sinal aqui embaixo.
— É uma ervinha com um sabor meio... como eu vou descrever... a meio caminho entre o alecrim e o anis?
— E você pediu um refrigerante disso?
Sem comentários.
Aproveitando que a garçonete continuava parada ao lado da mesa acompanhando o papo, decidimos já pedir a comida.
Foram dois khachapuris tradicionais de queijo, uma porção de khinkhali de cordeiro e uma entrada mista pra dois (suficiente pra três, segundo a moça). Vinha picles de beterraba, pasta de berinjela e mais sei lá o que. Ah, e pão.
— Vocês viram a startup lá da Suíça que criou uma cápsula de suicídio assistido? — comentou K., assim que a garçonete se foi. — A polícia acabou de prender o fundador.
V. pareceu intrigado:
— O direito à morte não é legalizado por lá?
— Talvez seja parecido com a prostituição — eu ponderei. — O crime não é o ato, é a exploração.
— Ué... — V. começou a refletir — Então eu posso construir minha própria cápsula, mas não posso oferecê-la pra ninguém?
A garçonete voltou com as bebidas: duas taças de cerveja e um copo enorme de refresco de estragão, que tinha cor de lagartixa, cheiro de sovaco e gosto de cólica renal.
— Falando em morte — retomou V. — esse fim de semana vou numa feira de longevidade. Coisa lá do Vale do Silício.
— Vai contar pra molecada como você chegou inteiro aos trinta? — cutucou K.
— Evento da empresa. Vai ter uma barraca nossa distribuindo petiscos proteicos.
— É um público bom. — avaliei. — Essa galera da longevidade compra qualquer coisa que promete parar o tempo. Skincare, bolsa de soro, pílula, adesivo, pedra, pó, supositório...
— Ué, mas você não quer viver pra sempre? — devolveu V.
Não entendi se era ironia, provocação ou uma dúvida genuína.
— Ninguém quer — eu disse — E ninguém vai.
Tomei um gole do refresco e prossegui:
— Sabe o que me irrita? Essa fé que a nossa geração tem na tecnologia. A gente cresceu vendo tanta bugiganga nova que passou a acreditar nesse papo de que nada é impossível. Eu discordo. Por exemplo, eu posso afirmar, sem ressalvas, que nunca vai existir teletransporte. Não é questão de dinheiro, de inteligência, de boas ideias. É fisicamente impossível, e ponto final. E o mesmo eu acredito que vale pra vida eterna.
— Olha... talvez seja mesmo impossível nos próximos, digamos, cem anos. — rebateu V. — Mil anos. Dez mil anos! Mas você não acredita que, num futuro remoto, tudo seja possível?
K. entrou no debate:
— Sem dúvida, tem gente muito inteligente trabalhando pra tornar qualquer coisa possível. — ele ponderou. — Eu não apostaria contra. E do mais, você não quer que tudo seja possível?
— Não.
— Como não??? — trovejaram os dois ao mesmo tempo.
O ar parecia cada vez mais sufocante dentro daquele porão.
Era a calefação no talo; gente falando, rindo, comendo; brinde pra cá, brinde pra lá.
— Quando tudo é possível, nada é possível. — expliquei. — Se eu pudesse viajar a qualquer lugar num piscar de olhos, eu nunca estaria em lugar nenhum. Se eu pudesse construir qualquer coisa sem uma gota de suor, eu nunca construiria nada. E se vocês pudessem viver pra sempre, meus caros amigos, vocês já estariam mortos.
Antes que os dois se manifestassem, reapareceu a garçonete, dessa vez trazendo a comida.
Por um bom tempo, a conversa se voltou pra assuntos mais leves. Falamos de cinema, de Roland Garros e dos planos de K. para visitar sua nova namorada em Istambul.
Uma noite deliciosa, como sempre.
Foi só quando a gente saiu do restaurante e K. parou pra acender um cigarro que me ocorreu de retomar o assunto de antes.
Eu disse:
— Se já dá vertigem lembrar da nossa época de escola... imagina um sujeito que tá vivo há dois, três séculos?
— Sem dúvida, seria difícil não enloquecer. — avaliou K. — A tecnologia talvez até resolva o cansaço físico. Mas esse cansaço... existencial? Não sei se tem solução...
Enquanto isso, V. checava seu trajeto no Google Maps. Sem levantar a cabeça, ele comentou:
— Talvez a vida eterna demande uma saída. Um pra mim chega, sabe?
— Uma cápsula de suicídio assistido? — provoquei.
— Sei lá, podia ser uma coisa menos tétrica, né? Tipo um disjuntor.
Uma ambulância dobrou a curva na nossa frente, ativando sua sirene enloquecedora ao passar no cruzamento.
— Então deixa eu entender... — eu disse, assim que o barulho se distanciou. — Você deseja vida eterna, mas quer manter a morte a um clique de distância?
V. levantou a cabeça:
— E você... prefere uma morte garantida, mas incerta?
K., sempre tão conciliatório quanto provocativo, gesticulou na minha direção e indagou:
— Digamos que você permanecesse jovem...
— Defina jovem. — eu solicitei.
Ele refletiu por um instante.
— Adulto o suficiente pra saber do que você gosta, mas não a ponto de viver num eterno retorno.
— Idade, meu caro. Eu quero uma idade.
K. deu um último trago no cigarro, tacou a bituca no chão e pisou em cima. Abrindo um sorriso, ele respondeu:
— Trinta e um.
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