Ninguém quer trabalhar

Ninguém quer trabalhar
Photo by Abbe Sublett / Unsplash

O pior momento de 2025 foi quando cortaram meu auxílio-desemprego.

A notícia me pegou de férias na Grécia, sentado numa espreguiçadeira em frente ao mar.

— Com licença, senhor. Mais alguma coisa? — perguntou o garçom.

— Só a continha mesmo. — respondi.

Não tinha mais clima pra outro Aperol.

Notando que havia algo de errado, Letícia virou-se na minha direção.

— O que aconteceu? — ela perguntou, preocupada. — Pera... você tá folheando o LinkedIn???

Guardei o celular no bolso, joguei a toalha na mochila, calcei o chinelo e respondi:

— Acabou.

— Acabou o quê?

— Acabou a mamata.

Caminhamos em silêncio até o carro.

Quando dei partida, o Spotify disparou a música que vinha tocando antes da gente estacionar: Wir tanzen Souvlaki — uma paródia alemã em ritmo grego.

Meti a mão no painel e desliguei.

Calma. — Letícia insistiu. — Não é o fim do mundo.

Girei o controle do ar-condicionado até o talo. Engatei a ré dando um tranco na embreagem e fui manobrando pra sair, mas tive que brecar forte pra não atropelar um grupo de meninas britânicas — uma mais incinerada de sol que a outra.

Não é o fim do mundo...

— É sério! Eu tenho que ir trabalhar todo dia, não tenho?

— E você gosta?

— Nem um pouco. Mas, como diz a sua camiseta...

Olhei pra baixo. No peito, a estampa lia:

It is what it is.

A viagem de volta pro hotel levava quarenta e cinco minutos. A estrada ia margeando os penhascos de Creta, abrindo vistas maravilhosas sobre o Mar Egeu.

— Eu tive um ano pra dar um jeito. — refleti, cortando o longo silêncio. — Um ano inteiro pra evitar que esse dia chegasse. E o que eu consegui nesse tempo? Escrevi um monte de código e um monte de crônica que não me levou a lugar nenhum. Ideias natimortas. Firula. Pura firula.

— Você quer escrever, não quer?

— Quero.

— E o que te impede de continuar escrevendo se você arranjar um emprego?

— O desgaste, o ranço, a raiva.

— Me parecem bons ingredientes. — alfinetou Letícia.

O sol parecia entrar por todas as janelas ao mesmo tempo. Irritado, acelerei pra ultrapassar um caminhão.

— Se alguém me pedisse hoje uma dica de carreira — rosnei — sabe o que eu diria? Faz qualquer coisa que te afaste do LinkedIn. Vira médico, mecânico, mestre de obras. Tenta a sorte no octógono, entra pro circo, forma uma quadrilha.

— Você não vai formar quadrilha nenhuma que eu não quero ter que te visitar na cadeia.

— Se eu voltar a ter chefe, é questão de tempo.

Quando passamos por Heraklion, a estrada se tornou mais sinuosa. Era o trecho final antes da saída pra Agia Pelagia, a vilinha onde estávamos hospedados.

Fui dirigindo em silêncio, tentando esvaziar a cabeça, enquanto Letícia observava a paisagem e petiscava uns amendoins.

Quando chegamos na saída, eu murmurei:

Cretino a Vida Adoidado.

— Oi?

— O nome desse episódio da minha vida. Sinopse: um sujeito viaja com a namorada a Creta, mas não para de reclamar.

Letícia abriu um pouco a janela. Uma lufada de ar quente e seco invadiu o carro. Não havia um fio de maresia — era puro deserto.

— Que tal... — ela refletiu, olhando pra fora — amanhã a gente alugar duas bikes? Podemos gravar um novo episódio: Bici-Creta.

Maravilhoso.

— Ou melhor — ela emendou. — A gente compra um binóculo e espia o povo no hotel em frente: Janela Indis-Creta.

Sem palavras.

— Você nasceu pra isso. Já pensou em ser profissional?

— Já, mas não paga muito bem. Sem chance da gente conseguir bancar outra viagem à Grécia: um desempregado e uma trocadilhista.

— Desempregado, não. Desalentado. Respeita a minha história.

— Foco — ela estalou os dedos. — A gente tava tendo um papo sério antes do seu chilique. Me diz: o que você realmente quer?

Nem precisei pensar:

— Quero ter uma revista.

Expliquei a ela:

Sabe quando você senta numa daquelas mesas redondas de festa de casamento, cercado de gente que você nunca viu antes, aí alguém vira e pergunta: e você, trabalha com o quê?

Não faço ideia como responder a isso.

Adoraria ser uma dessas pessoas que têm a resposta na ponta da língua:

Sou advogado tributarista.

Sou técnico da Vivo.

Sou presidente da Bolívia.

Mas essa linearidade nunca foi pra mim.

Se eu tentasse resumir a minha jornada, sairia algo como:

Eu estudei cinema em Buenos Aires, me graduei cientista biomédico na USP, mas fui parar numa consultoria americana. Depois de dois anos eu saí, aprendi a escrever código, me mudei pra Berlim e fundei uma fintech. Minha empresa chegou a valer quase um bilhão de reais, mas acabou vendida por bem menos que isso. Fiz um pé de meia? Fiz, mas o outro ficou descalço, então eu tive que assumir o cargo de diretor de alguma coisa na empresa que nos adquiriu — papel que eu exerci com o entusiasmo de uma aula dupla de português. Pedi demissão no dia em que totalizou a contribuição pra liberar o auxílio-desemprego alemão. Hoje? Bom, hoje eu divido meu tempo entre escrever crônicas e roer as unhas esperando a fatura do cartão. E você, trabalha com o quê?

Percebe?

Mas ter uma revista mudaria tudo.

Revista tem CNPJ, editorial, código de barras.

O povo fala “ah, eu li na...”, e mesmo que ninguém nunca tenha ouvido o nome, aquilo imediatamente parece de uma intelectualidade maravilhosa.

Sem contar no impacto retórico da coisa:

Sou dono de uma revista.

Baita resposta.

— Então me promete uma coisa — interrompeu Letícia assim que entramos no estacionamento do hotel. — Você vai começar sua revista, e vai publicar toda quinta uma crônica. Se você pular uma edição — uma única semana — a Pantufa é minha.

— Não encosta no meu cachorro, sua...

— Se pular uma semana, o cão é meu. Promete agora.

E foi assim, meus amigos, que nasceu a Solário.

Naquele dia eu acordei de férias, passei algumas horas procurando emprego, e fui dormir CEO. Que montanha-russa!

Mas olha eu aqui, falando e falando de trabalhar e só enrolando. Chega por hoje. Deixa eu bater o ponto que a crônica da semana que vem não vai se escrever sozinha.


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