Nostálgicos Anônimos

Nostálgicos Anônimos
Photo by Mira Kireeva / Unsplash

— Meu nome é Vinícius.

Oi, Vinícius.

— E eu sou nostálgico há quase vinte anos.

Essa era a primeira reunião de Vinícius e o grupo acompanhava seu relato atentamente.

— Hoje é o aniversário da minha filha — ele continuou, e seus olhos se encheram de lágrimas. — Tá fazendo cinco aninhos, a Manu. Eu queria muito passar esse dia com ela, sabe? Mas minha ex, minha família... todo mundo tem vergonha de mim.

A senhora sentada ao seu lado passou-lhe uma caixa de lenços e sussurrou algumas palavras de apoio.

— 2006... — ele prosseguiu — 2006 foi o ano em que a minha vida começou. E foi o ano em que ela terminou, também.

Vinícius respirou fundo.

— 2006 foi o ano em que eu entrei no ensino médio. Foi o ano do meu primeiro show... Evanescence, estádio do Morumbi. 2006 foi a primeira vez que eu bebi, que eu fumei, que eu viajei com meus amigos. 2006 foi o meu primeiro beijo, e quase... não, isso demorou pouco mais.

Do outro lado da sala, um senhor vestindo o uniforme da seleção da Copa de 70 caiu na gargalhada. Domingos, dizia o nome atrás da camisa. Número 9.

— 2006 também foi quando eu ganhei esse mp3 aqui, ó. Ainda funciona que é uma beleza! Alguém gosta de Simple Plan?

Silêncio.

— Só que o tempo passou rápido — ele suspirou. — E quando eu fui ver, já era 2007, 2010, 2015. Veio vestibular, faculdade, estágio, morreu minha vó, meu gato, minha irmã casou, separou, eu arranjei um emprego, fui demitido, arranjei outro, aluguei uma quitinete... o mundo girava sem parar, mas no fim do dia, eu era o mesmo Vinícius de 2006, sabe? Um pôster do Blink no quarto. A jeans raspando no chão. Toda noite entrando no MSN e torcendo pra alguém aparecer.

Uma participante levantou pra abrir a janela, deixando entrar uma brisa fresca.

— Nessa época — Vinícius continuou — meus amigos já tinham começado a pegar no meu pé. Olha lá o Avril Lavini, eles falavam. Conta pra gente... você passa chapinha no sovaco, também?

Domingos riu de novo e tomou um cutucão da senhora ao seu lado.

— Eu não dava bola, porque tinha acabado de conhecer a Bia. A gente se vestia igual, ouvia as mesmas músicas, ia junto nos shows. Dentro da nossa casa, era 2006, sabe? E foi assim por anos... até que nasceu a Manu. Aí parece que virou uma chavinha na Bia. Da noite pro dia, ela só queria saber de futuro. Chega dessa velharia!, ela berrou um dia. Já foi! Já foi isso! Deixa de ser maluco, Vinícius!

Ele balançou a cabeça.

— Não deu nem tempo de eu processar aquilo. Quando fui ver, ela já tava pedindo o divórcio e fazendo a cabeça de todo mundo que eu tava doido. Mas eu não sou doido, não.

Uma moto passou na rua estralando o escapamento.

— Eu sei que é 2026, cara! Eu tenho calendário. Mas assim como pro... — é Domingos, né? — pro Domingos é 1970, e pra...

Marie-Louise — disse a moça, abanando seu leque.

— ... pra Marie é Brasil Império, no meu coração é 2006 e ponto final! Eu não sei explicar. Acho que ninguém nessa sala sabe.

Passando de mão em mão, um copo d'água chegou até Vinícius.

— Outro dia me falaram: Ah, pergunta isso daí pro ChatGPT.

Vinícius virou a água num trago só.

— Cara... Eu não quero perguntar nada pra chat coisa nenhuma. Eu quero pesquisar na porra do Yahoo! — ele rugiu, batendo a mão na mesinha. — Eu quero perguntar sabe pra quem? Pro tio Rogério, um tio meu que foi professor de geografia, que sabe das coisas!

Domingos puxou uma rodada de aplausos, que logo se espalhou pela roda, com exceção de um sujeito sentado próximo à porta, que observava Vinícius com muita seriedade.

Era um rapaz bem jovem — não tinha nem trinta ainda. Seu nome era Enzo — mas por muito tempo, foi conhecido como Tarzan.

Tarzan sofria desde a infância com um terrível caso de nostalgia pela pré-história. Ele andava por aí de canga, se pendurando em árvores, e vivia com diarreia de ficar tomando água de rio poluído. As coisas só começaram a mudar quando ele foi preso por fazer uma fogueira em pleno Parque do Ibirapuera. Na cadeia, ele conheceu outros nostálgicos e acabou criando a metodologia dos treze passos. Através dela, ele conseguiu finalmente se tornar quem ele é hoje: Enzo, um homem com os dois pés em 2026.

— Eu sei que eu preciso fazer as pazes com o calendário. Aceitar que o que já foi, já foi. — refletiu Vinícius, notando o olhar severo de Enzo. — Eu comecei o programa na semana passada, seguindo bonitinho o roteiro. Um ano por mês. Daqui a pouco eu chego em 2007. Fim do ano, já vai ser 2019!

Aplausos.

— É tanta palavra nova, tecnologia, celebridade... coisa de doido. E eu ouvi dizer que de 2020 pra frente, é só morro abaixo.... Mas vamo que vamo. Se Deus quiser, vai dar tudo certo. Obrigado, pessoal. De coração!

Vinícius era o último a falar naquela noite. Assim que ele encerrou seu relato, o pessoal foi se levantando, pegando as blusas e bolsas, trocando despedidas e se encaminhando à saída.

Mas antes, Vinícius aproveitou pra passar na mesinha do coffee break e pegar uma coxinha e um Guaraná.

— Com licença? — alguém chamou.

Vinícius virou o rosto e deu de cara com Marie-Louise, que abanava seu leque com força e suava intensamente.

Marie era uma moça muito bonita.

Seus cabelos cacheados pendiam como uma samambaia pra fora do chapéu de crochê, e um espartilho marfim realçava as suas belíssimas curvas, emendando numa luxuosa saia de cetim.

— Oi... pois não. — respondeu Vinícius, de sobressalto.

— Gostei de ouvir a vossa — digo, a sua história. Parabéns pela coragem.

Vinícius continuou mastigando a coxinha, sem saber como reagir.

— Se me permite a pergunta... com o que você trabalha? — a moça continuou.

Ele encaçapou o restante do salgado com um gole de Guaraná, limpou a boca com as costas da mão e respondeu:

— Fotografia de casamento. E a vossa — digo, você?

— Eu vendo brigadeiros. Marie Bijou. Já ouviu falar?

— É aquele do lacinho dourado que eu vejo o pessoal comprando ali na saída do CPTM?

— CPTN?

— Deixa pra lá.

— Enfim... eu... trouxe um aqui pra te dar.

A moça tirou de sua minúscula bolsa uma caixinha dourada.

Vinícius pegou o presente na mão e já foi logo desembalando.

— Não! — ela interrompeu, tocando sua mão. — Leva pra casa.

Restavam apenas os dois na sala.

— Me diz uma coisa... — ela arriscou, toda vermelha. — O que você acha de um café depois da próxima sessão?

Vinícius arregalou os olhos:

— Ahm... tá... pode ser.

— Combinado, então! — disse Marie. — Nos vemos semana que vem!

A moça se despediu com uma reverência e saiu pela porta, toda suada, apressada e sorridente.

Ela não cabia em si de alegria. Só faltava saltitar.

É que a jovem Marie-Louise tinha pinta de comportada, mas guardava um segredo secretíssimo: ela adorava sair com homens do futuro.


Toda quinta, uma crônica como essa. Quer? Então clica no botão Subscribe pra cadastrar seu e-mail. A Solário é gratuita e escrita por humanos, para humanos. Sem agenda oculta e sem IA.