O início, o fim e o meio
Eu detesto a primavera.
Chove. Aí venta. Aí aparece o sol. Aí faz um frio desgraçado, esquenta, esquenta mais um pouco, forma uma fila na porta da sorveteria, e quando você acha que estabilizou, alguém diz:
— Olha, tá nevando!
Nessa desgraça de estação, quando eu saio de casa, ou eu passo frio, ou eu passo calor.
Geralmente os dois no mesmo dia.
Às vezes, os dois na mesma rua.
Na avenida aqui perto de casa tá assim: numa calçada já é quase junho; na outra ainda é fevereiro.
Mas a primavera é desse jeito mesmo. Destrambelhada. Indecisa. Irresponsável.
Ela sabe aonde vai, mas não tá nem aí pra rota. Pega a estrada de terra, acelera, derrapa, ultrapassa na contramão, capota, cai de pé e já sai cantando pneu pelo acostamento.
Coitado do outono assistindo a tudo isso e esperando a vez dele, todo comportadinho e pensativo.
Acho sacanagem agruparem os dois como meia-estação.
O outono a gente leva pra casa pra apresentar pros pais. É beijinho na testa, dois filhinhos e um labradoodle.
Já a primavera a gente agarra no meio da rua embaixo da chuva. Quando vai ver, fugiu junto pra um paraíso secreto, fez duas tatuagens iguais e não mandou nem um cartão-postal.
Um respeita a cadência; o outro é puro arrebatamento.
E esse arrebatamento é fatal.
É na primavera que acontecem os momentos mais momentosos.
A Batalha de Berlim, que levou ao fim da Segunda Guerra Mundial, aconteceu em maio. O que me faz pensar: além do intenso fogo das metralhadoras nazistas, os soldados soviéticos tiveram que enfrentar uma terrível coceira no nariz.
E tem muito mais.
Chernobyl foi na primavera.
O Titanic foi na primavera.
A lista é longa — tanto a da História, como a da minha própria vida.
Nas trinta e duas primaveras que vivi até hoje aconteceu muita coisa. E outras tantas estão acontecendo enquanto eu escrevo este texto.
Não vou negar: têm sido tempos agitados.
E quanto mais eu resisto, mais o vento arranca o meu topete.
Talvez o único jeito de me desanuviar seja fazendo as pazes com a primavera.
Perdoar o frio, o calor, o vento, a chuva e a bagunça.
Perdoar esse despertador da vida não tem função soneca.
Perdoar o lamaçal, e me perdoar por rolar nele e me sujar todo.
Acho que eu consigo.
Mas o pólen? Esse eu não perdoarei jamais.
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