Uma lata de atum
Na manhã em que J. Feierabend completou trinta anos como zelador do prédio onde vivia com a esposa, ele encontrou na caixa-postal um envelope solitário. Sem remetente, nem destinatário.
— Caro Sr. Feierabend — lia a carta. — Em gratidão a tudo o que o senhor fez por essa comunidade, deixo-lhe o meu apartamento. Espero que lhe agrade! — Assinado, 23B. P.S.: Não se esqueça de alimentar o gato.
Feierabend examinou o envelope, e quando o virou de ponta cabeça, uma chave caiu no chão.
Curioso, ele avaliou. Muito curioso.
Em primeiro lugar: quem é que sai por aí distribuindo presentes por malote? Que coisa absurda. Aquilo certamente era golpe. Ou sarro. Ou trote.
Mas em segundo lugar — e talvez ainda mais importante: o apartamento 23B nunca esteve ocupado. Pelo menos não nos últimos trinta anos.
Feierabend releu a carta mais uma vez. Duas, três, quatro. Virou-a ao avesso, ergueu-a contra a luz, mas não encontrou nenhuma pista do suposto benfeitor.
Talvez na chave?
Nisso, uma voz arranhada ecoou pelo prédio e vez vibrar os corrimões da escada.
— Schatz? — a voz chamou. — Schaaatz???
— Já vai! Já vai!!! — Feierabend berrou de volta, sem tirar os olhos da chave desbotada na palma de sua mão.
De qualquer maneira, restava-lhe apenas uma opção.
O apartamento 23B ficava no prédio dos fundos; segundo andar, voltado para o pátio interno.
Feierabend atravessou apressado o caminho pavimentado entre as árvores, entrou no prédio e subiu as escadas. Ao final do primeiro lance, deu de cara com a Srta. Woyzeck.
— Ah! Bom encontrar o senhor por aqui! — ela disse, fechando as mãos em prece. — Eu até ia deixar um bilhete embaixo da porta... Ai, Sr. Feierabend... — ela suspirou. — Tem um cheiro esquisito vindo lá do fundo do corredor. Um cheiro muito esquisito. E já tem dias isso, viu? Ontem eu decidi passar lá e tocar a campainha. Toquei, toquei, mas ninguém atendeu. E um cheiro, Sr. Feierabend... Será que o senhor pode dar uma olhada?
Ele prometeu à Srta. Woyzeck dar ao assunto máxima prioridade.
— Ainda pela manhã — ele assegurou, abrindo passagem.
Chegando finalmente ao segundo andar, Feierabend logo percebeu o tal do cheiro que a vizinha havia relatado.
Mas, para sua surpresa, não era fedor e sim perfume.
Um perfume tão intenso que chegava a enjoar.
Num primeiro momento, lembrou-lhe uma torta de maçã, fresquinha saindo do forno.
Mas a cada passo que ele dava, o aroma ia se transformando.
De torta de maçã foi pra terra molhada, depois pata de cachorro, pipoca de cinema, couro, louro, cravo e canela.
E então, de repente, não havia mais cheiro algum.
Feierabend olhou pra frente e viu-se em frente a uma porta de madeira escura cujo entalhe dourado lia 23B.
Ele tirou a chave do bolso, mas os bons modos o instaram a primeiro tentar a campainha.
Sem resposta.
— Tem alguém em casa? — ele chamou, batendo à porta.
Silêncio.
Ainda desconfiado, Feierabend enfiou a chave na fechadura e girou-a cautelosamente até sentir o trinco ceder.
Então, com um leve rangido, a porta se entreabriu.
A luz da cozinha estava acesa.
Um ventilador de teto girava lentamente.
A torneira da pia gotejava sobre a cuba de metal.
Feierabend deu dois passos tímidos pra dentro e fechou a porta atrás de si.
— Com licença? — ele tentou novamente. — Tem alguém aí?
De repente, a cortina se mexeu.
Feierabend saltou pra trás, afoito, e começou a tatear em busca da maçaneta, crente de que tinha caído numa emboscada.
Mas então, por entre as folhas da cortina apareceu um gatinho cinza, todo felpudinho, que saltou pra mesa de centro, depois pra escrivaninha, e por fim se acomodou na bancada da janela.
Recuperando-se do susto, Feierabend deu mais alguns passos pelo apartamento, olhando criteriosamente tudo à sua volta.
Checou embaixo da cama, olhou as gavetas, os buracos das tomadas e as frestas dos rodapés.
Quando enfim concluiu a inspeção, ele tomou coragem e foi até a bancada da janela fazer um carinho no gato.
Lá fora, o sol brilhava sobre as copas ralas das árvores do pátio.
Dali via-se também o amanhecer nas cozinhas dos outros apartamentos — inclusive daquele onde moravam Feierabend e sua esposa.
E lá estava ela.
Ainda de pijama, apoiada na bancada da pia, segurando uma xícara de chá numa mão e um cigarro na outra.
Agora ela vai assoprar o chá, murmurou Feierabend. E dar um trago no cigarro.
O homem e o gato continuaram assistindo à cena durante um tempo.
Então Feierabend lembrou-se do trecho final da carta e partiu, apressado.
O gato continuou olhando pela janela, observando enquanto Feierabend atravessava o pátio interno, desaparecia brevemente, e então reaparecia na janela de seu apartamento, passando por trás da esposa, que não pareceu notá-lo.
Na ponta dos pés, Feierabend esticou o braço pra fisgar na dispensa uma lata de atum — o que fez o gato salivar — e então saiu de cena, reaparecendo já no pátio interno, caminhando na direção do prédio dos fundos.
De volta ao 23B, Feierabend abriu a lata e serviu atum ao gato, e então se pôs a dar uma geral no apartamento.
Bateu as almofadas pra tirar o pó. Trocou a roupa de cama por um conjunto fresquinho que ele encontrou na cômoda. Regou as plantas, guardou os livros, deu corda no relógio.
Por fim, ele empurrou a escrivaninha um pouquinho pro lado, de forma que a poltrona pudesse ficar mais rente à janela.
Assim que ele se sentou, o gato pulou no seu colo e os dois retomaram a atividade de antes.
Deu meio-dia, duas e meia, quatro, cinco, sete horas.
As copas das árvores agora brilhavam à luz da lua, balançando com a brisa gostosa da noite.
O gato adormeceu primeiro, todo esparramado.
Feierabend apagou logo depois.
— Schatz? — a Sra. Feierabend urrava pela janela, se acabando em lágrimas. — Schaaatz???
Mas J. Feierabend não se mexia, perdido em sonhos tranquilos.
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