Ovos

Ovos
Photo by Jasmin Egger / Unsplash

Na última quinta eu sonhei que sonhava com um sonho.

Desses de padaria, sabe?

No mesmo instante, meu chip neural identificou o sonho e enviou um alerta ao meu mordomo.

Ele — que nunca dorme e que sonha apenas os meus sonhos — recebeu esse desejo subconsciente como uma ordem.

Em coisa de nanossegundos, o mordomo gerou uma receita de sonho, extraiu os ingredientes e despachou encomendas aos sete cantos do meu império.

Não levou nem meia hora para que pousasse no meu jardim uma carreta voadora trazendo duas xícaras de farinha de trigo da minha fazenda mais próxima.

Pouco depois, chegou uma pipeta com três gotinhas de baunilha, transportada por hipertrem submarino do meu cultivo em Madagascar.

Óleo, leite, fermento e açúcar — um por um, os ingredientes foram despachados de suas origens, transportados até minha fortaleza e organizados sobre a bancada da pia.

Por fim, atracou um cargueiro trazendo a pitada de sal.

Concluídas as entregas, meu cozinheiro — um colosso de cinco metros de altura e cinco toneladas de silício — começou o mise en place, mas a inspeção dos ingredientes logo revelou um problemão: faltavam os dois ovos.

Ora, sem ovo não há creme, e sem creme não há sonho.

Sempre muito diligente, o cozinheiro contatou o diretor da granja para pedir o status da entrega, mas recebeu uma resposta seca: Erro 456 — Ovos não encontrados.

Confuso, ele pediu ajuda ao mordomo, que tinha habilidades mais abrangentes e um perfil mais incisivo.

Num piscar de olhos, o mordomo descobriu o porquê da falta de ovos:

— Morreram todas as galinhas.

Preocupado, o mordomo puxou informação daqui, relatório dali, fez uma varredura completa nos registros do sistema e, enfim, reconstituiu o que havia acontecido.

Tudo começou na quinta-feira anterior.

Naquela madrugada, meu vizinho da fortaleza ao lado sonhou com bolo de fubá.

Seu chip neural fez a leitura e encaminhou para o mordomo, que prontamente despachou o pedido dos ingredientes.

Até aí, nada demais.

No entanto, ao começar o preparo do bolo de fubá, o cozinheiro notou a ausência de um ingrediente imprescindível: o fubá.

Abriu-se uma investigação e logo veio a resposta: não havia fubá porque não havia milho, e não havia milho porque as galinhas, sabe-se lá por qual razão, tinham devorado tudo.

O mordomo do vizinho então refletiu, recorrendo a milhões de páginas de livros de culinária, tratados de zoologia e episódios do Globo Rural, e concluiu que a única chance de conseguir assar esse bolo a tempo para o café era recorrendo a uma prática antiga: o comércio.

Em arquivos empoeirados que não faziam parte do treinamento de nenhum mordomo há muitas e muitas gerações, ele encontrou conceitos como oferta, demanda e preço — palavras de um tempo em que ainda se fabricava coisas para vender, a fim de ganhar dinheiro para comprar aquilo que não se podia fabricar.

Nos arquivos, ele também encontrou técnicas de negociação, dicas de oratória, e todo um vocabulário específico do setor.

Queima de estoque, ele repetiu pra si mesmo.

O patrão ficou maluco.

É pegar ou largar.

Ao cabo de quarenta e cinco minutos, ele enfim estava pronto para sua missão: buscar o estoque mais próximo de milho e adquirir uma pequena quantia.

E o alvo escolhido foi a minha granja.

— Quero comprar duas xícaras — ele anunciou.

A requisição pegou de surpresa o diretor da granja. Ele nunca tinha ouvido a palavra comprar.

Buscando uma definição, tudo o que ele encontrou foi que uma compra sempre envolvia uma contrapartida.

— O que eu recebo em troca? — ele perguntou, incerto do que aquilo significava.

— Grilos! — respondeu o mercador, sem hesitar. — O senhor, como gestor desta belíssima propriedade, certamente já ouviu falar dos benefícios dos grilos na dieta das galinhas.

O diretor da granja nunca tinha ouvido falar nem nos benefícios, nem nos próprios grilos.

— Ora, os grilos são um excelente alimento para as galinhas — explicou o mercador. — Elas vão adorar!

O granjeiro refletiu sobre o negócio por um instante e não encontrou objeções.

Destino selado.

E, de fato, as galinhas ficaram malucas com os grilos: finalmente, um pouco de variedade no cardápio!

Comeram e comeram até não sobrar mais um grilo sequer.

O problema é que, no dia seguinte, elas não queriam mais saber de milho.

Em protesto, elas berravam sem parar, cagavam nas paredes e bicavam com força contra as grades.

Aqui e ali pipocaram brigas entre os galos, que disputavam os últimos grilos no pote.

Temendo uma rebelião, o diretor contatou o mordomo-mercador pra fechar mais negócio, e fechou na hora, pois o bolo de fubá já tinha virado item fixo no café do meu vizinho.

Mais milho pra cá, mais grilos pra lá — a coisa ia rodando sem parar, até que, ao cabo de poucos dias, veio a tragédia.

A dieta crocante e desbalanceada adoeceu todo o galinheiro.

Quando o diretor se deu conta, já era tarde demais.

Morreram todas na mesma noite — na noite antes do sonho.

O primeiro fio de sol já aparecia no horizonte quando meu mordomo terminou de ler os registros.

Não havia mais tempo.

Sem ovos, sem galinhas e sem tempo, ele concluiu que lhe restava apenas uma opção: recorrer ao tal do comércio.

Eu não sei dos pormenores, mas sei que uma hora depois, um drone cruzou o céu da fortaleza levando dois ovinhos brancos pendurados por uma pinça, atravessou a janela da cozinha e os deixou ao lado da batedeira. O cozinheiro fritou a massa, preparou o creme e empratou sua obra com todo o capricho.

Meu despertador tocou enquanto ele passava o café.

Levantei, calcei as pantufas e desci pra sala.

O lindo sonho me aguardava sobre um prato de aço escovado, acompanhado de uma xícara de café com leite e um guardanapo-origami dobrado em forma de galinha.

— Que bela surpresa! — comentei.

Tomei um gole de café, peguei o sonho na mão, admirei por um instante e finalmente dei uma bela mordida pra pegar bastante creme — mas nisso eu despertei.

Suado, atrasado e babando de vontade de comer um sonho.

Foi o rapaz do balcão da padaria que me alertou que eu ainda estava de pijama.


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