Partida

Partida
Photo by Hans Eiskonen / Unsplash

Teve uma época em que o meu caminho do escritório pra casa passava por uma rotatória confusa e perigosa.

Numa das muitas entradas e saídas tinha um posto de gasolina, e na entrada do posto tinha um letreiro enorme desses que indicam o preço dos combustíveis.

Depois de meses passando por ali na volta do trabalho, me chamou atenção que, todo dia, o letreiro acendia exatamente às 18:00. Nem um segundo a mais nem um a menos.

No começo não dei muita bola, mas em algum momento comecei a me perguntar: será que alguém liga e desliga esse troço manualmente, ou ele funciona por conta própria?

Minha primeira avaliação foi bastante objetiva: se tivesse uma pessoa responsável pelo letreiro, certamente haveria dias em que ele acenderia às 17:59. Ou às 18:01. Ou às 18:20. Essa pontualidade infalível não parecia ser obra humana.

Além disso, por que entregar o letreiro ao arbítrio de uma pessoa se ele deveria repetir todos os dias exatamente o mesmo padrão?

A automação era menos arriscada e mais parcimoniosa.

E eu estava bastante convencido dessa resposta, até que, um dia, me veio um pensamento atravessado: e se, por alguma razão, fosse decidido que, a partir de amanhã, o letreiro deveria acender não mais às 18:00 e sim às 19:00? Ou que hoje — apenas hoje — ele deveria acender às 17:00? Ou que ele deveria acender agora?

Bom, se o letreiro funcionasse mesmo por conta própria, de duas, uma: ou sua programação era inalterável, ou quem quer que estivesse no comando dela nunca quis alterá-la.

Como até então nunca havia ocorrido um desvio do padrão, era impossível afirmar se ele era mantido porque era o único possível, ou porque era o único desejável.

Fiquei travado nesse embate durante semanas, até que, em um sonho, desatei o nó.

Veja: alguém tinha construído aquele letreiro.

Por que esse construtor teria criado um padrão inalterável?

O que fazia das 18:00 um horário especial a tal ponto que ele deveria ser o único horário possível pra acender o letreiro?

Ninguém abdica de possibilidades sem uma razão.

Essa consistência toda agora me cheirava a capricho.

Aquilo não era automação.

Ou o letreiro mandava no próprio nariz, ou alguém mandava no nariz dele.

Agora, se o letreiro fosse mesmo senhor de si, por que ele faria todos os dias a mesma coisa? Ele poderia experimentar com sua própria luz. Acender quando bem entendesse. Era muito mais plausível que alguém mandasse no pobre letreiro e impusesse nele o padrão das 18:00.

Mais do que uma coceira intelectual, esse pensamento me encheu de uma estranha esperança.

Eu percebi que queria muito que existisse alguém com o controle do letreiro no bolso.

Alguém que podia acender o letreiro quando quisesse, mas que escolhia acendê-lo todo dia exatamente no mesmo horário.

Alguém infalível.

O problema era que, se esse alguém fosse mesmo infalível, eu nunca seria capaz de provar sua existência.

Na infalibilidade, a única resposta defensável continuaria sendo a de que o letreiro funcionava por conta própria — sem intervenção, sem escolha.

Se eu quisesse provar a existência dessa criatura suprema que une o arbítrio à perfeição, minha única saída era forçar um erro.

Mas como?

Desenhar esse experimento me consumiu por completo.

Pra começar, passei a abastecer meu carro exclusivamente nesse posto.

Mas a coisa piora.

Quando eu chegava na rotatória voltando do trabalho, passei a dar duas, três, vinte voltas de forma a poder observar o letreiro e a movimentação no posto.

À noite, eu voltava para observar o fim do expediente — ocasião em que, exatamente às 00:00, o letreiro se apagava.

Minha investigação revelou que trabalhavam no posto sempre um frentista e um caixa, que ficava lá na lojinha de conveniência.

Se tivesse mesmo uma criatura infalível controlando o letreiro, teria que ser um desses dois.

Com essa hipótese em mãos, enfim bolei minha prova de conceito: ocupar os dois homens, simultaneamente, com algo que demandasse suas quatro mãos, exatamente no momento em que o letreiro deveria acender.

Na quinta-feira seguinte, saí um pouco mais cedo do escritório e coloquei o plano em ação.

Às cinco pra seis, embiquei no posto e encostei na bomba sete.

Acionei a alavanca do capô e desci do carro sinalizando para o frentista que havia algo de errado.

— Acho que a bateria arriou — eu disse, fazendo sinal de cortar o pescoço. — Vai precisar de chupeta.

O frentista guardou sua caneta BIC no vão da orelha e veio olhar o motor junto comigo.

Depois de uma breve sondagem, ele pediu que eu sentasse no carro e tentasse ligar o motor.

Fiz um teatrinho.

Ele acreditou.

— Tá parecendo que o problema é pior, doutor. — avaliou o frentista. — É o motor de partida. Mas bora tentar a chupeta.

Na sequência, virando-se pra loja de conveniência, ele chamou: — Ô Isaías. Isaías! Vem aqui.

Em apenas um minuto e quarenta e três segundos, Isaías saiu da loja, manobrou seu Corsa pra ficar de frente pro meu carro, e tirou o kit chupeta do porta-malas.

Às 17:59, estava tudo montado.

Isaías, com as duas mãos no cabo vermelho. O frentista, com as duas mãos no cabo preto. E eu, sentado ao volante.

— Pode dar partida — disse Isaías.

Dez segundos, pensei, olhando no meu relógio.

Nove.

— Pode dar partida, doutor! — o frentista ecoou.

Três.

Dois.

— Dá partida!!! Vai! — berraram os dois ao mesmo tempo.

Um.

Girei a chave do carro.

E o letreiro acendeu.


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