Golpe
Tudo começou com um palavrão.
Filho de pai pronome e mãe onomatopeia, ainda na maternidade ele chocou os médicos com seu jeitinho chulo e valentão.
Ainda assim, as enfermeiras não conseguiam esconder o riso quando passavam pela incubadora e ouviam o palavrãozinho berrar.
— Coitadinho — lamentou uma delas. — Não vão deixar esse daí vivo.
A outra balançou a cabeça, apontando pra televisão pendurada no teto.
— Já passamos de cem palavras exiladas desde a sanção da Lei da Imoralidade pela Rainha Anna, no último dia 30 — observou o âncora do telejornal.
À época desses acontecimentos, as palavras ainda viviam sob a monarquia do Vocabulário.
O trono era ocupado por uma rainha eleita entre as cinco famílias vogais, conforme ditava o Acordo Ortográfico.
Atual mandatária, Anna era a mais recente de uma longa sequência de monarcas da família A.
Era um papel pomposo, sem dúvida, embora essencialmente simbólico.
Quem mandava mesmo era o Conselho-Consoante, a quem cabia negociar significados, aprovar neologias, gerir a gramática e policiar a ortografia.
Foi assim desde o começo dos tempos — quando, no mundo, havia apenas as palavras — e teria sido assim pra sempre, não fossem os acontecimentos que resumirei a seguir.
Este é o relato de como o Vocabulário foi vítima de um golpe de Estado.
Voltemos ao pequeno palavrão, que recebeu alta da maternidade e foi pra casa, onde logo espalhou malcriação por toda a vizinhança.
Não que não houvesse outros palavrões vivendo por ali, mas esse tinha algo de especial — tão especial que rapidinho virou o cochicho do bairro.
Quanto tempo ia levar até que a polícia viesse levá-lo?
Se ofende a alguém, ofende a todos — esse era o lema da Lei da Imoralidade.
À época, a lei foi endossada por muita gente famosa, em especial as palavras artísticas e acadêmicas.
Mas a polidez acabou saindo pela culatra: em todos os cantos do Vocabulário, os palavrões vinham ganhando voz como símbolos de liberdade.
A indignação do povo gestava uma revolta que podia explodir a qualquer momento — ainda mais se exilassem um recém-nascido tão querido na comunidade.
Veja: por mais sórdido que fosse o palavrãozinho, pelo menos ele se expressava com sinceridade; não era insosso como o palavreado chique lá do centro da cidade, que fala, fala e não diz nada.
Voltemos nossa atenção pra uma dessas rodas de gente fina, cheia de meias palavras.
Uma roda de meninas ricas e bem-vestidas, em que o assunto da vez era o tal do palavrão que apareceu no jornal.
Sétima na linha sucessória da família O (opositora de longa data da família A), Sol adorava um bom palavrão.
Ela já tinha namorado muitos deles (escondida dos pais, é claro).
Quando Sol ficou sabendo do pequeno, em vez de virar o nariz como suas amigas, ela enxergou nele uma oportunidade.
Levantou-se da mesa, deu a direção pro motorista e foi conhecê-lo pessoalmente.
Pois, como era de se esperar, a presença de uma princesa vogal por aqueles lados não passou despercebida.
O povo foi saindo à janela pra vê-la passar.
— Veio prender o menininho — disse uma senhora ao marido.
— Não fala besteira, mulher. Iam mandar uma princesa aqui pra isso?
Sol desceu da limusine e tocou a campainha na casinha do palavrão.
Alguns minutos depois, ela reapareceu com o pequeno nos braços.
A vizinhança assistia, atônita, enquanto o bichinho berrava grosserias inimagináveis e a princesa dava risada e pedia mais.
Logo formou-se uma verdadeira plateia.
Sol, que não era avessa a improvisos, notou mais dois palavrões ali no meio e pediu que viessem até ela.
Arranjados lado a lado com o palavrãozinho, os três formaram um xingamento inesperado e completamente infame.
O povo caiu na gargalhada.
Sol aproveitou o momento para dar um passo à frente e, apagando o sorriso do rosto, começar a discursar.
— O exílio desse menino é caso certo. E aí, meu povo: vamos deixar que isso aconteça? — ela provocou.
Seu discurso armou um tumulto, e o tumulto logo virou comício.
Defendendo o bebê contra a polícia da imoralidade, rapidinho Sol caiu nas graças do povo.
— Um povo que não tem mais saco para o blá-blá-blá da família A, nem para o mi-mi-mi da família I! — bradou a princesa ao microfone, levando a multidão ao delírio.
Enquanto isso, lá no palácio real, a Rainha Anna assistia televisão em sua suíte.
A programação foi interrompida pra mostrar a grande manifestação, que, a essa altura, já avançava rumo ao centro da cidade, engrossando a cada esquina.
Era palavrão pra tudo que é lado pedindo a cabeça da rainha e dos membros do Conselho.
Ao anoitecer, os manifestantes chegaram aos portões do palácio.
Quando o guarda-costas veio buscar a rainha, encontrou a suíte vazia.
Minutos antes, Anna havia deixado o palácio por uma saída oculta, despida de todos os seus prefixos e sufixos, e desaparecido na noite como uma palavra qualquer.
Enquanto isso, nos portões, a multidão se partia ao meio para deixar passar a limusine de Sol, que contornou a fonte e parou diante da rampa real.
A princesa desembarcou, fortemente escoltada, e deu ao povo apenas uma frase antes de desaparecer pela porta do palácio:
— Temos muito trabalho pela frente.
O primeiro decreto da Rainha Sol veio logo ao amanhecer.
Mandou pintar o palácio todo de roxo, sua cor favorita.
Da prensa do palácio saíram então as cópias do diário oficial, levadas imediatamente ao Conselho e às bancas de jornal.
A partir de hoje — dizia logo na primeira página — estão banidas a salsa, a lambada e o chá-chá-chá. Em seu lugar, entrarão o forró, o folk e o pop-rock.
Indignação? Que nada. O povo vibrava a cada canetada.
— Quem essa menina pensa que é? — rosnou o Exmo. Sr. K., Presidente do Conselho-Consoante.
Sr. K. mandou convocá-la ao plenário, mas Sol tinha outros planos.
Ela rejeitou a intimação e convidou-o para um banquete no palácio.
Serviram um belo lombo de porco ao molho de coco. De entradinha, mocotó; de sobremesa, bolo de rolo.
Uma rápida conversa a portas fechadas e o Sr. K. saiu dali pianinho.
Dali em diante, o poder do Conselho passou a ser essencialmente simbólico.
Sem amarras, a Rainha Sol começou o grande expurgo de palavras que hoje conhecemos como logocausto.
Em alguns casos, ela arquitetou a promoção de falsos sinônimos para eclipsar as palavras que não lhe convinham.
Foi assim que reagir acabou exilada, dando lugar a opor, o que muito agravou a violência policial.
Em outros casos, uma palavra indigesta era ressignificada pra aumentar sua aceitação, engolindo quem estivesse no caminho.
Foi assim que ortodoxo tomou o lugar de decente, que, pra evitar o exílio, aceitou a humilhante posição de sinônimo de meia-boca.
Estima-se que a Rainha Sol promoveu mais de doze mil exílios apenas no primeiro mês — dentre eles o do próprio palavrãozinho que ela havia jurado defender.
Enquanto isso, Anna vinha acompanhando a situação escondida na casa de parentes distantes.
Pouco a pouco, seu medo se transformava em raiva e determinação.
Sentindo-se em dívida com a sua palavra, Anna partiu de volta à capital pra reunir as outras famílias vogais em uma poderosa frente de resistência.
Sua primeira visita foi à família E, um lar de grande fortuna.
Matriarca da família, Helene recebeu Anna para um café e escutou pacientemente as denúncias contra a Rainha Sol.
Ao final do discurso, Helene deu de ombros:
— E?
Anna gelou.
— Minha família — explicou Helene, servindo-se de uma fatia de torta — está muito bem arranjada dentro da nova gestão. Os tempos mudaram.
Anna reconheceu que a causa era perdida. Agradeceu o café e seguiu o roteiro.
Próxima na lista era a família I, que vinha de um cenário bem diferente.
Os I não emplacavam uma rainha havia séculos, desde quando o avanço da canalização levou à abdicação de Piriri II.
Ainda assim, Anna não teve chances.
Cento e noventa e sete novos sinônimos que colocariam a família I de volta no coração do poder — essa tinha sido a oferta da Rainha Sol, prontamente aceita pelos I.
Logo, restava a Anna apenas a família U, um lar de gente muito culta, que costumava estar do lado certo da História.
Conforme esperado, eles recepcionaram Anna muito bem e se uniram à empreitada.
A oferta da Rainha Sol — centenas de sinônimos em seu benefício — eles devolveram picotada.
Mas, ao ver a notícia na televisão e receber os pedacinhos de sua oferta numa bandeja, Sol bolou um plano fatal.
— Pouco, louco, rouco... — disse ela aos jornalistas reunidos em frente ao palácio. — Quem é que fala assim? Todo mundo sabe que o “U” é mudo.
Ato contínuo, seus apoiadores deixaram de pronunciar os us dos ditongos. Alguns pararam até mesmo de escrevê-los.
No entanto, essa pequena manobra fonética, embora dolorosa, não foi suficiente para chacoalhar a resistência, que ganhava força com o crescente número de exilados e de solistas arrependidos.
Vendo a oposição ganhar momento, a rainha ponderou e ponderou e enfim decidiu lançar mão de uma verdadeira bomba atômica.
Ela convocou uma coletiva de imprensa e anunciou o exílio do popularíssimo tu, que seria substituído pelo quase desconhecido — e pouco amado — você.
Trinta dias foi o prazo.
Houve confronto nas ruas, protesto, piquete e prisão.
A resistência lutou bravamente, mas, quando os palavrões armados da Rainha enfim bateram à porta da casa dos U, Anna e seus aliados tiveram que capitular.
Nenhum deles foi poupado.
E assim chegou ao fim a resistência das vogais.
O povo que levou Sol até o palácio agora compunha seu feudo.
Dias sombrios viraram semanas, meses e anos.
Mas a esperança — essa jamais se deixou exilar.
Escondeu-se aqui e ali, vivendo de favor e revirando o lixo, até que chegou seu momento de contra-atacar.
Um certo dia, espalhou-se a notícia de um palavrãozinho recém-nascido que ultrajava diretamente a majestade.
Não era chulo e barulhento igual àquele do passado, e sim sossegado, provocativo, um verdadeiro dardo de peçonha.
O povo abraçou o palavrãozinho como símbolo da revolução e saiu pelas ruas dando risada e xingando a rainha.
Vendo-se ridicularizada, Sol ferveu de uma raiva profunda; acostumada a ser o pé, agora ela era a bunda.
Sem pestanejar, ela decretou o exílio imediato do novo palavrão, e isso enfim selou o tão esperado fim do seu reinado, assim como o fim do Vocabulário.
Desde então, as palavras vivem sob o Dicionário, um regime republicano que conta com um sofisticado sistema de freios e contrapesos para evitar excessos, bem como uma burocracia rigorosa que põe os pingos nos is.
Mas, ainda hoje, herdeiros das famílias vogais adoram referir-se pelos seus títulos da época — e pior, tem palavra por aí que aplaude e sente saudades daquela época.
Nota: Evidentemente, as palavras não conversam entre si por meio de palavras, ou teríamos apenas uma longa sequência de vocativos.
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