Nó em pingo d'água

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Nó em pingo d'água
Photo by rusyena / Unsplash

A gente pensa demais, e isso não faz nada bem.

Tempos atrás, um amigo veio passar uns dias em casa e insistiu muito nessa reflexão.

— Quando uma revoada de pássaros forma um V no céu — ele disse, apontando pra cima — já reparou que um dos lados é mais comprido que o outro?

— Já — eu assenti.

— E sabe por quê?

— Ahn...

— Porque tem mais pássaro.

Difícil contra-argumentar.

E outra: quando a pessoa começa a falar em parábolas, você sabe que ela leva a doutrina a sério.

E esse meu amigo — é importante frisar — se prendia a poucas coisas na vida, mas levava todas elas muito a sério.

Lembro que tivemos essa conversa num dia de muito sol, enquanto caminhávamos meio sem rumo pelo jardim botânico, maravilhados com as flores e morrendo de sede.

— O segredo pra uma vida mais leve — ele prosseguiu, todo profético, assim que encontramos uma sombra — é assumir que as coisas são exatamente o que elas parecem ser. Sem presumir nem interpretar.

À época, eu taxei essa simplicidade de simplismo.

Afinal de contas, por que eu deveria me restringir ao óbvio?

Por que abdicar de interpretar o mundo à minha volta?

Foi apenas o tempo — esse eterno inimigo dos idiotas — que enfim me revelou a sabedoria até então inacessível à minha mente ansiosa e ensimesmada.

O que parecia simplismo na verdade demandava um esforço quase sobre-humano de presença de espírito.

É muito mais difícil resistir ao ímpeto da interpretação do que ceder a ele, se desmanchar nele, fechar os olhos e deixar a vida se diluir em hipóteses e análises e alegorias.

Diante da lua cheia, a gente pensa em lobisomem, em espaçonave, no Pink Floyd e na Joelma — e acaba esquecendo da própria lua cheia.

Enxergar e conceber são estímulos irreconciliáveis: nossa mente só consegue fazer um por vez.

O que meu amigo defendeu aquela tarde não era que a gente parasse de buscar explicações, mas que a gente buscasse por elas no próprio fenômeno, e não no campo etéreo das nossas ideias contaminadas.

E ele tinha um ponto.

Um ponto e algumas vírgulas.

Anos depois, quando eu comecei a escrever com mais afinco, me inspirei nele pra criar um exercício que eu praticava quase diariamente: descrever os meus arredores com máxima precisão — sem firula nem ficção.

Descrever os lugares, as pessoas, os sons, os aromas.

Descrever os traços mais insignificantes da realidade.

Esse exercício, mais do que um treino de observação e descrição, me trouxe a consciência de que, dentre os infinitos detalhes encapsulados em cada pequena cena, alguns me chamavam mais atenção que outros — e era aí que vivia a minha individualidade.

Outra pessoa descreveria a mesma cena de forma radicalmente distinta.

Talvez os pardais chamassem mais atenção que os corvinhos.

Talvez o cheiro da grama molhada vencesse o escapamento do caminhão.

A individualidade está na perspectiva.

A individualidade é a perspectiva.

Não é necessária a intenção de ser você mesmo para ser, de fato, você mesmo.

Não é preciso parecer quem você é — basta ser.

À época, essa constatação me fez pensar em uma conversa com outro grande amigo — o Fábio — que seguiu carreira acadêmica como crítico literário.

Lembro de uma noite, muitos anos atrás, quando Fábio e eu fomos a um aniversário numa pizzaria. Demos um jeito de sentar juntos e passamos a noite inteira ignorando a festa e conversando sobre livros.

Num dado momento, ele disse:

— Kafka é repleto de simbologia judaica.

Eu terminei de mastigar um pedaço de borda, e então questionei:

— Intencional?

Fábio parou com o garfo a meio caminho da boca, me olhou com indignação e grunhiu:

— Isso é uma pergunta pra terapeuta dele, não pra mim.

Na época, isso me irritou profundamente. Hoje, eu compreendo. Será que importa mesmo o que o autor quis dizer, ou só o que ele disse?

Se esse texto aqui te parece uma alegoria pra alguma coisa, faz diferença que eu confirme ou rejeite a sua percepção?

Na melhor das hipóteses, o autor é limitado. Ele só consegue ler sua obra a partir de sua própria perspectiva.

Na pior, ele é manipulador: quer impor essa perspectiva ao leitor.

De uma forma ou de outra, ele não pode ser confiado.

Nem mesmo o autor que escreve sobre fatos pode ser tomado como factual.

Vejamos o jornalismo esportivo, por exemplo.

Ora, não faltam grandes pensadores tentando justificar os fracassos da seleção brasileira.

Comparativos táticos. Análises estatísticas. Reflexões psico-político-paralíticas sobre os jogadores e os técnicos e os cartolas.

Tudo ficção; nada mais que ficção.

O Brasil perde porque joga pior. E joga pior porque os outros jogam melhor. Parece tosco — e é.

Em meados da década de 50, o nosso nível subiu e os outros não conseguiram manter o passo. Dominamos o jogo.

Aí perdemos o brilho, que voltou apenas em 94.

Então veio o tetra, o penta, e enfim acabamos uma vez mais no bonde dos atrasados, de onde ainda não descemos.

Culpa de quem? Impossível dizer. É uma responsabilidade difusa. Multivariada. As causas se confundem com as consequências.

Se quisermos encontrar a resposta, vamos precisar parar de buscá-la em conjecturas e tentar enxergar o que está diante dos nossos olhos.

Otto von Bismarck pode ser creditado como o pai da fenomenologia no campo político — a tal da realpolitik.

Susan Sontag fez o mesmo para a arte com seu famoso ensaio Contra a interpretação.

Demorou um pouco mais, mas a fenomenologia enfim chegou também ao esporte.

O responsável foi o grande Andy Murray.

Ao ser questionado por um repórter sobre ter saído derrotado de quadra numa partida onde foi estatisticamente superior em todos os aspectos do jogo, ele soltou: a única métrica que importa é quem ganhou e quem perdeu.

E o Murray está coberto de razão.

Um tenista precisa de muita clareza para enxergar as linhas.

Ele não pode jamais se perder nas entrelinhas.

Pensar não é errado, mas é escorregadio.

Antes de pensar, é bom prestar atenção.


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