Nó em pingo d'água
A gente pensa demais, e isso não faz nada bem.
Tempos atrás, um amigo veio passar uns dias em casa e insistiu muito nessa reflexão.
— Quando uma revoada de pássaros forma um V no céu — ele disse, apontando pra cima — já reparou que um dos lados é mais comprido que o outro?
— Já — eu assenti.
— E sabe por quê?
— Ahn...
— Porque tem mais pássaro.
Difícil contra-argumentar.
E outra: quando a pessoa começa a falar em parábolas, você sabe que ela leva a doutrina a sério.
E esse meu amigo — é importante frisar — se prendia a poucas coisas na vida, mas levava todas elas muito a sério.
Lembro que tivemos essa conversa num dia de muito sol, enquanto caminhávamos meio sem rumo pelo jardim botânico, maravilhados com as flores e morrendo de sede.
— O segredo pra uma vida mais leve — ele prosseguiu, todo profético, assim que encontramos uma sombra — é assumir que as coisas são exatamente o que elas parecem ser. Sem presumir nem interpretar.
À época, eu taxei essa simplicidade de simplismo.
Afinal de contas, por que eu deveria me restringir ao óbvio?
Por que abdicar de interpretar o mundo à minha volta?
Foi apenas o tempo — esse eterno inimigo dos idiotas — que enfim me revelou a sabedoria até então inacessível à minha mente ansiosa e ensimesmada.
O que parecia simplismo na verdade demandava um esforço quase sobre-humano de presença de espírito.
É muito mais difícil resistir ao ímpeto da interpretação do que ceder a ele, se desmanchar nele, fechar os olhos e deixar a vida se diluir em hipóteses e análises e alegorias.
Diante da lua cheia, a gente pensa em lobisomem, em espaçonave, no Pink Floyd e na Joelma — e acaba esquecendo da própria lua cheia.
Enxergar e conceber são estímulos irreconciliáveis: nossa mente só consegue fazer um por vez.
O que meu amigo defendeu aquela tarde não era que a gente parasse de buscar explicações, mas que a gente buscasse por elas no próprio fenômeno, e não no campo etéreo das nossas ideias contaminadas.
E ele tinha um ponto.
Um ponto e algumas vírgulas.
Anos depois, quando eu comecei a escrever com mais afinco, me inspirei nele pra criar um exercício que eu praticava quase diariamente: descrever os meus arredores com máxima precisão — sem firula nem ficção.
Descrever os lugares, as pessoas, os sons, os aromas.
Descrever os traços mais insignificantes da realidade.
Esse exercício, mais do que um treino de observação e descrição, me trouxe a consciência de que, dentre os infinitos detalhes encapsulados em cada pequena cena, alguns me chamavam mais atenção que outros — e era aí que vivia a minha individualidade.
Outra pessoa descreveria a mesma cena de forma radicalmente distinta.
Talvez os pardais chamassem mais atenção que os corvinhos.
Talvez o cheiro da grama molhada vencesse o escapamento do caminhão.
A individualidade está na perspectiva.
A individualidade é a perspectiva.
Não é necessária a intenção de ser você mesmo para ser, de fato, você mesmo.
Não é preciso parecer quem você é — basta ser.
À época, essa constatação me fez pensar em uma conversa com outro grande amigo — o Fábio — que seguiu carreira acadêmica como crítico literário.
Lembro de uma noite, muitos anos atrás, quando Fábio e eu fomos a um aniversário numa pizzaria. Demos um jeito de sentar juntos e passamos a noite inteira ignorando a festa e conversando sobre livros.
Num dado momento, ele disse:
— Kafka é repleto de simbologia judaica.
Eu terminei de mastigar um pedaço de borda, e então questionei:
— Intencional?
Fábio parou com o garfo a meio caminho da boca, me olhou com indignação e grunhiu:
— Isso é uma pergunta pra terapeuta dele, não pra mim.
Na época, isso me irritou profundamente. Hoje, eu compreendo. Será que importa mesmo o que o autor quis dizer, ou só o que ele disse?
Se esse texto aqui te parece uma alegoria pra alguma coisa, faz diferença que eu confirme ou rejeite a sua percepção?
Na melhor das hipóteses, o autor é limitado. Ele só consegue ler sua obra a partir de sua própria perspectiva.
Na pior, ele é manipulador: quer impor essa perspectiva ao leitor.
De uma forma ou de outra, ele não pode ser confiado.
Nem mesmo o autor que escreve sobre fatos pode ser tomado como factual.
Vejamos o jornalismo esportivo, por exemplo.
Ora, não faltam grandes pensadores tentando justificar os fracassos da seleção brasileira.
Comparativos táticos. Análises estatísticas. Reflexões psico-político-paralíticas sobre os jogadores e os técnicos e os cartolas.
Tudo ficção; nada mais que ficção.
O Brasil perde porque joga pior. E joga pior porque os outros jogam melhor. Parece tosco — e é.
Em meados da década de 50, o nosso nível subiu e os outros não conseguiram manter o passo. Dominamos o jogo.
Aí perdemos o brilho, que voltou apenas em 94.
Então veio o tetra, o penta, e enfim acabamos uma vez mais no bonde dos atrasados, de onde ainda não descemos.
Culpa de quem? Impossível dizer. É uma responsabilidade difusa. Multivariada. As causas se confundem com as consequências.
Se quisermos encontrar a resposta, vamos precisar parar de buscá-la em conjecturas e tentar enxergar o que está diante dos nossos olhos.
Otto von Bismarck pode ser creditado como o pai da fenomenologia no campo político — a tal da realpolitik.
Susan Sontag fez o mesmo para a arte com seu famoso ensaio Contra a interpretação.
Demorou um pouco mais, mas a fenomenologia enfim chegou também ao esporte.
O responsável foi o grande Andy Murray.
Ao ser questionado por um repórter sobre ter saído derrotado de quadra numa partida onde foi estatisticamente superior em todos os aspectos do jogo, ele soltou: a única métrica que importa é quem ganhou e quem perdeu.
E o Murray está coberto de razão.
Um tenista precisa de muita clareza para enxergar as linhas.
Ele não pode jamais se perder nas entrelinhas.
Pensar não é errado, mas é escorregadio.
Antes de pensar, é bom prestar atenção.
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