Câmbio
— Sabia que dá pra trocar de marcha sem pisar na embreagem? — perguntou meu amigo, cujo nome — veja só — também era Patrick.
Estávamos a bordo de um Palio prata 1.6, pegando uma estrada de terra que conectava Vinhedo à Rodovia dos Bandeirantes.
Quem dirigia o carro era o pai do Patrick, que tinha sido piloto de rali na juventude e quis levar a gente pra dar um pipoco.
— Você tem que acertar o momento exato. — continuou Patrick, olhando de relance para o pai. — Se errar, é dente no dente. Arregaça o câmbio na hora.
Eu ouvia atentamente, sentado no banco de trás.
— E como eu sei o momento exato? — perguntei.
— Você não sabe, Neuhaus. — interrompeu o pai, impaciente. — Você sente.
— Tá — eu insisti — e como eu sinto?
Mas ele ignorou minha pergunta e acelerou com tudo, me afundando no assento.
Estávamos numa longa subida cercada de morros dos dois lados.
Lá na frente, o laranja da estrada se fundia com o azul do horizonte.
Terceira marcha. Quarta.
Os arbustos que pontilhavam a encosta tinham se reduzido a uma lâmina esverdeada que fatiava a paisagem.
Quinta.
O motor do Palio não roncava, ele grunhia.
Parecia que ia estourar a qualquer momento.
E então, subitamente, paramos de subir, o motor silenciou, e eu senti na minha barriga que tínhamos entrado numa ladeira íngreme e sinuosa.
O pai do Patrick reagiu jogando o volante pra esquerda, o que fez o carro derrapar pro lado oposto até quase bater na encosta, e depois girou de volta pra pegar uma curva brusca logo à frente.
O rali tinha começado.
E durou mais umas boas horas.
Foi uma tarde de fortes emoções, mas de volta em casa no fim do dia, o que ficou na minha cabeça, muito mais do que as derrapadas e os hairpins, foi esse negócio da troca de marcha sem embreagem.
Será que dava mesmo?
Na época, eu estava com meu primeiro carro: um Toyota Etios preto, que eu tinha comprado de um mecânico japonês lá no Ipiranga.
Peguei com setenta mil quilômetros rodados, mas o bichinho parecia novo. Só precisei instalar um som bluetooth.
Passado o fim de semana do rali, tive que voltar pra São Paulo. Entrei no meu Etios, botei o Concerto de Brandenburgo N.3 e peguei a estrada atiçado a tentar a troca de marcha, mas aterrorizado com o risco.
Imagina destruir o câmbio do carro que eu tinha acabado de comprar?
Mas talvez fosse a prova de habilidade. Talvez apenas o risco. Fato é que essa ideia começou a cozinhar dentro de mim e eu não conseguia mais dirigir sem prestar atenção, minuciosamente, em cada pequena movimentação de embreagem e câmbio.
Toda manhã e todo fim de tarde, eu entrava no carro, engatava a primeira e pensava: será que é hoje que eu tento?
Um dia, em plena 23 de Maio, eu cheguei a puxar um pouquinho o câmbio da terceira pra quarta marcha sem acionar a embreagem, mas parei assim que ouvi o rangido da engrenagem.
Mas o tempo foi passando e, alguns meses depois, como acontece com as pequenas obsessões, essa desapareceu.
Não pensei mais nela por um bom tempo, até que — e disso me lembro bem — chegou uma sexta-feira de muito frio.
Eu tinha um evento da empresa, mas decidi que ia passar o fim de semana em Campinas.
Já era mais de meia-noite quando eu saí do evento, atravessei a marginal vazia e enfim peguei a Bandeirantes.
Naquela noite nem liguei o meu bluetooth. Deixei tocando Mix FM. Nesses horários da madrugada a programação era ótima e tinha pouquíssima propaganda.
Foi lá pro quilômetro 40 que o negócio da troca de marcha reapareceu na minha cabeça.
Mas dessa vez foi diferente.
Não era um devo, não devo.
Era um vou.
Esperei passar o pedágio, e quando cheguei num trecho mais reto e vazio da estrada, fui dando seta até pegar a última pista da direita. Então diminuí a velocidade e reduzi pra quarta marcha.
O DJ da Mix meteu Shut Up and Dance.
Braba demais.
Respirei fundo, agarrei o câmbio e acelerei.
O velocímetro foi subindo devagarinho.
Eu mantive uma mão firme no volante e fiquei de olho no rpm.
A manopla do câmbio começou a formigar.
E então eu senti.
Senti que eu estava dentro do motor, girando junto com as engrenagens, respirando com a explosão dos cilindros, meu coração batendo no ciclo de Otto.
Fechei os olhos, peguei firme na marcha e — sem forçar, sem hesitar — empurrei da quarta pra quinta.
Ouvi o metal arranhar até dar um clique.
O motor soltou um rugido grosso, e então silenciou.
Abri os olhos e examinei o painel. 2400 rpm. Quinta marcha.
Eu consegui, caralho.
Era possível. Eu troquei a maldita marcha sem embreagem.
E foi a memória dessa noite que me acompanhou quando, anos depois, eu entreguei meu querido Etios para avaliação na Azul Automóveis, lá no centro de Campinas.
Cento e quarenta mil quilômetros rodados.
— Já foi batido? — perguntou o funcionário.
— Nunca.
— Pegava muita estrada?
— Pegava.
Fechei um preço legal.
Era um bom carro.
Quem levou deu sorte.
Toda quinta, uma crônica como essa. Quer? Então clica no botão Subscribe pra cadastrar seu e-mail. A Solário é gratuita e escrita por humanos, para humanos. Sem agenda oculta e sem IA.