A Torre de Ão

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A Torre de Ão
Photo by Simon Godfrey / Unsplash

Diz a lenda que a Torre de Ão tem uma única entrada, mas tem duas saídas. A primeira saída é a própria entrada; a segunda, ninguém nunca encontrou — ou, se encontrou, não voltou pra contar.

E olha que desde tempos muito antigos — tempos em que ainda não havia reis nem mendigos — gente corajosa de toda parte atravessa o deserto pra se aventurar na Torre de Ão.

Vêm guerreiros, profetas, fugitivos e poetas. Cada um com suas armas; cada um com sua razão.

Um por um eles entram na Torre, e um por um eles retornam, derrotados, engatinhando pelo mesmo portão.

E estes ainda podem dizer-se pessoas de sorte, pois não é raro que alguém entre e não saia nunca mais.

Dizem os cidadãos de Ão que dá pra construir uma outra torre só com os ossos dos desafortunados.

Pois pra sanar a questão, há em Ão um capelão incumbido da função de, uma vez por ano, entrar na Torre e tirar os restos daqueles que não encontraram nenhuma das duas saídas.

Esse capelão — o mais recente de uma longa tradição — conhece a Torre como ninguém, pois além de capelão, ele é o guardião das milhares e milhares de páginas das Crônicas de Ão.

Nelas, estão compilados os nomes e os relatos de um sem fim de aventureiros, numa tentativa, talvez em vão, de mapear o interior da Torre.

A história de hoje é sobre um desses aventureiros.

Um tal de Matias — sujeito magro e pequeno, que apareceu de mochila nas costas e chapéu de feno, usando um broche de ave que chamou atenção.

— Que bicho é esse? — perguntaram quando ele chegou em Ão.

— É um condor — ele respondeu, sorridente. — É meu bichinho da sorte.

Seis meses se passaram desde que Matias entrou na Torre; seis meses desde que ele desapareceu na escuridão.

Pois enfim chegou o dia da limpeza anual, e o capelão partiu cedinho com sua pequena carriola em busca dos restos de Matias.

A entrada da Torre dava num corredor estreito.

Não havia luzes nem janelas — apenas a lamparina que ele levava na mão.

Aspirando um último trago de ar fresco, o capelão bateu a porta atrás de si e começou sua operação.

Um pouco adiante, o corredor desembocava numa escadaria que subia pra esquerda e descia pra direita.

Mas o capelão, munido de grande sabedoria, sabia muito bem que a escada era uma ilusão: a subida descia para um fosso e a descida subia até um alçapão.

Uma vez lá em cima, o capelão tinha um roteiro para a varredura.

Ele começava pelo labirinto, que era onde a maioria dos aventureiros se perdia.

Se não encontrasse o corpo ali, ele seguia para a gruta de cristais, cujas passagens estreitas e cantos afiados já haviam clamado incontáveis vidas.

Mas, se ele não achasse o corpo nem no labirinto, nem entre os cristais, a última opção era entrar no túnel.

E foi ali que o capelão, já cansado das buscas sem resultado, encontrou algo de muito inusitado.

Na parede do túnel, alguém tinha pintado uma ave.

Um pequeno V, riscado com giz sobre a pedra.

Ele continuou caminhando, inquieto, até que, no fim do túnel, quando o caminho se bifurcava uma vez mais, ele encontrou outra vez a mesma pintura.

Dessa vez, a ave estava desenhada num tijolo frouxo.

Encafifado, ele puxou o tijolo, o que acionou um mecanismo que revelou uma passagem oculta, da qual, nas milhares de páginas da Crônica, ele nunca havia lido nada.

A passagem dava numa ponte de madeira sobre um mar de escuridão.

Pelo ruído, ele assumiu que, lá embaixo — muito lá embaixo — passava um rio de grande calibre.

O capelão atravessou a ponte empurrando a carriola e segurando firme o seu lampião.

Do outro lado, ele encontrou outra ave pintada num vaso de barro espatifado no chão.

Entre os cacos, ele encontrou uma chave dourada, que ele examinou contra a luz da chama e enfiou no bolso do casaco.

Mais alguns passos adiante, outra ave indicou ao capelão uma pequena abertura pela qual ele teve que passar de bruços, se arrastando no barro.

Então, o capelão sentiu um cheiro familiar e sentiu seu corpo pinicar.

De repente, uma luz forte invadiu seus olhos.

Quando ele enfim conseguiu enxergar, viu-se deitado no meio de um jardim — um bosque cheio de vida cercado de um gigantesco cilindro de paredes de pedra.

Lá em cima — muito lá em cima — ele viu um círculo com o azul do céu.

E, quase no céu, encrustrada na rocha, ele reconheceu a silhueta de uma porta.

Trêmulo e sem acreditar em sua visão, o capelão buscou uma pedra onde pudesse subir pra ver melhor.

Depois outra, e mais outra.

Quando esgotaram-se as opções, ele se agarrou num cipó e balançou até a parede oposta.

E assim, pouco a pouco, o capelão foi subindo até a altura das copas das árvores, e subiu mais e mais até que o jardim se tornou apenas uma mancha esverdeada e a porta estava à sua altura, porém do lado oposto do rochedo.

O círculo do céu agora brilhava no violeta do anoitecer, e a lua reluzia contra a porta.

E que porta, esculpida de mármore com entalhes dourados, e alta a ponto de deixar passar um camelo.

Mas o detalhe que mais chamou a atenção do capelão foi outro. Preso na maçaneta, ali estava ele: o broche do condor.

Matias! Matias!!!

O coração do capelão palpitava. Ele queria alcançá-la, abri-la, queria gritar de euforia.

Respirando fundo, ele deu dois, três passos até encostar na rocha, e saiu correndo em direção à beirada, mas parou logo antes de saltar, pois sentiu que não chegaria do outro lado.

Então ele começou a repensar a rota.

Tentou encontrar pedras, cipós, qualquer coisa que lhe permitisse chegar até o lado de lá em segurança, mas não havia nada.

A porta estava isolada, no topo da parede oposta.

E ali o capelão permaneceu, avaliando se saltava ou não saltava, maquinando planos e mais planos, e pedindo aos céus que o ajudassem a chegar do outro lado.

Tomou impulso muitas e muitas vezes, mas sempre parava logo antes de saltar.

O dia clareou, depois escureceu, depois clareou novamente, enquanto o capelão continuava parado no lugar, olhando para a porta.

Seu corpo perecia de sede e fome e cansaço.

Enfim, esgotadas suas forças, o capelão admitiu derrota e decidiu descer e retornar por onde veio.

A porta não era pra ele.

Ele havia encontrado a segunda saída.

Agora podia contar ao mundo que a lenda era real.

Que a busca nunca foi em vão.

Podia revelar o caminho que levava até ali, e podia contar do grande Matias, do gigante Matias, que atravessou para o lado de lá.

Sim, o seu papel não era o mesmo do rapaz. Ele não estava ali para atravessar, e sim para testemunhar.

E foi com esse pensamento — que lhe trouxe grande conforto — que o capelão escorregou.

Quando seus pés perderam o contato com a rocha, seu instinto não foi gritar. Nem fechar os olhos. Nem pensar uma última vez na vida e nas pessoas que amava.

Seu instinto foi mexer os braços feito uma ave e tentar voar.

E é apenas até aqui que eu sei contar sua história.

Em Ão, nunca mais se ouviu falar desse capelão.

O próximo assumiu uma semana depois do sumiço.

E em seu primeiro dia de faxina, ele fez questão de apagar as pixações de ave que encontrou no caminho.


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