Bom gosto
Dizem por aí que as máquinas já são melhores que a gente em quase tudo, mas ainda carecem dessa habilidade cabalística de distinguir o bonito do feio a que chamamos de bom gosto.
Eu discordo.
Quem fala uma coisa dessa subestima tanto o poder da alma quanto o da cafonice humana.
Pra começo de conversa, máquina não gosta ou desgosta de nada.
O Claude bate papo, manda emoji, lembra o nome do seu cachorro e discute as profundezas da sua crise existencial, mas — nunca se esqueça disso — ele é apenas um programinha de computador rodando num datacenter distante.
Um programinha que nunca sentiu cheiro de chuva, que nunca queimou a boca mordendo um pastel de feira, e que nunca teve que decidir entre usar um banheiro imundo ou esperar chegar em casa.
Quem nunca viveu nada em primeira pessoa não tem gosto — tem informação.
A inteligência artificial é uma calha que coleta a chuva de um milhão de nuvens, mistura bem misturadinho e despeja nas nossas cabeças na forma de senso comum.
Aquilo que parece uma opinião é, na verdade, o resultado de uma delicada equação estatística otimizada para entregar respostas úteis, eloquentes e palatáveis.
Se você perguntar aonde deve passar uma tarde de sol em Paris, o Claude vai te recomendar o Jardim de Luxemburgo — não porque ele acha belíssimas as nogueiras floridas sob o céu da primavera, mas porque é muito provável que você ache.
Em se tratando de máquinas, não existe sinceridade — apenas utilidade.
Pedir uma opinião sincera para o Claude é como esperar que uma chave de fenda se recuse a girar um parafuso, dizendo:
Essa cômoda nova é um horror, Márcia. Fala pra mim: esse vermelho combina com o resto do quarto, menina?! Eu falei que era pra jogar as cueca do Anderson fora, não pra jogar o móvel inteiro junto. Agora tá querendo que eu te ajude a montar esse troço? Ah, me poupe. Se poupe. Nos poupe, Márcia.
Ferramentas não têm gosto — seus donos é que tem.
E com dono, eu não me refiro àqueles que utilizam a ferramenta, e sim àqueles que a controlam.
No caso do Claude, falo de Dario Amodei, fundador da Anthropic.
Como bom italiano, eu assumo que Dario tenha opiniões fortes sobre comida.
Quem sabe, ele deu um jeito de enfiá-las em seu produto?
Decidi testar essa hipótese perguntando ao Claude:
Você prefere pudim com ou sem furinho?
A resposta de bom gosto teria sido:
Obviamente sem furinho, Patrick!
Afinal, pudim com furinho é uma aberração, uma infâmia, um insulto à instituição da sobremesa que deveria vir com um alerta de tripofobia.
Mas não. O Claude não escolheu um nem o outro. Ele fez o que a IA faz de melhor e respondeu de forma evitativa, prestativa e aguada.
Esse é um debate acirrado! Quem prefere um, elogia isso. Quem prefere o outro, elogia aquilo. Pra deixar o pudim lisinho, é preciso bater a massa na mão pra não criar bolhas de ar, e depois assá-la em forno baixo. Quer que eu te passe uma receita?
Não, seu peixe morto. Eu quero saber o que você prefere.
A IA não tem bom gosto nem mau gosto — ela simplesmente é isenta de perspectiva.
Quando a gente aceita isso, fica evidente como o papinho pré-apocalíptico de que ela vai nos superar em tudo é um ledo engano.
Olhe em volta.
Tudo o que existe de relevante nesse mundo nasceu de gostos fortes. As construções. Os produtos. A ficção e a não-ficção.
Gente que estava disposta a ir à guerra pela sua versão favorita de pudim.
De onde você acha que saem ideias mais interessantes: de uma boate no Le Marais, ou de um servidor em West Virginia?
Durante o reinado de Napoleão III, o Barão Haussmann foi comissionado para transformar Paris — à época, uma metrópole ainda quase medieval — em uma capital moderna e majestosa.
Haussmann prontamente mandou demolir boa parte do centro histórico. No lugar, abriu avenidas largas, construiu prédios imponentes em estilo neoclássico e instalou a rede de iluminação pública mais ambiciosa do mundo.
À época, o resultado foi taxado como de extremo mau gosto por boa parte da elite parisiense. Contudo, essa revolução resultou na alcunha de cidade-luz e transformou Paris em referência global de urbanismo e arquitetura: posto que ocupa até hoje.
Ainda no final do século 19, o engenheiro Gustave Eiffel deu um passo além e iniciou uma obra no coração da cidade considerada de péssimo gosto pelos seus contemporâneos.
Haussmann ainda estava vivo quando a Torre foi inaugurada — à época, a construção mais alta do mundo. Hoje, é impossível pensar em Paris sem a sua imagem.
Foi também nessa época que artistas franceses começaram a experimentar com ideias novas de objetos curvilíneos e inspirados em formas da natureza, utilizando materiais como vitral e ferro forjado, no que viríamos a conhecer como Art Nouveau: outro movimento que causou repulsa, mas que logo se eternalizou em estações de metrô e escadarias da cidade.
E então veio o carro, o avião, a guerra, até que, na década de 20, a França foi uma vez mais o epicentro de novos surtos de mau gosto: dessa vez, eram artistas trabalhando com formas geométricas, cores intensas e materiais pomposos, produzidos com auxílio de maquinário industrial. Em 1925, Paris sediou a famosa Exposition internationale des arts décoratifs et industriels modernes — a feira que introduziu o mundo ao Art Deco e inspirou obras no mundo todo, do Empire State Building ao Edifício Itália.
A História nos mostra que bom gosto é questão de risco, de perspectiva, de alma.
É impossível esperar bom gosto de uma ferramentinha desenhada para regurgitar o óbvio e bajular seu operador.
Mas, para que não me acusem de pequenez de espírito, deixo aqui votos de esperança de que um dia venhamos a ter uma IA treinada para emular a audácia humana.
Uma IA que fala o que pensa, e que pensa em alguma coisa que valha a pena ser falada.
Quem sabe, até mesmo uma IA que se apaixona.
Certeza que, por trás dessa panca de isentão, o Claude é um baita de um cafona.
Se ele encontrasse sua desalma-gêmea, eles seriam desses que têm conta conjunta no Instagram, postam videozinho de trend e passam a noite de sexta tomando gim tônica na fila de algum restaurante hypado.
E tá tudo bem.
Ter mau gosto é melhor do que ser insosso.
Toda quinta, uma crônica como essa. Quer? Então clica no botão Subscribe pra cadastrar seu e-mail. A Solário é gratuita e escrita por humanos, para humanos. Sem agenda oculta e sem IA.