Começa hoje

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Começa hoje
Photo by Wesley Tingey / Unsplash

No dia 13 de julho de 2014, Alemanha e Argentina disputaram a final da Copa do Mundo no Maracanã.

À época, eu estava em Fortaleza, passando uma semaninha de férias com meus pais e minha tia.

Nosso hotelzinho ficava a duas quadras do Fifa Fan Festival, onde eu pretendia assistir ao jogo e curtir a celebração.

A fim de poupar energia para o evento, tirei a tarde pra relaxar à beira da piscina.

E tudo ia bem — relativamente bem — até que meu celular tocou.

Era Amanda, minha então namorada.

— Aconteceu alguma coisa? — perguntei, notando algo de estranho na voz dela.

— Meu pai foi demitido — ela disse, segurando o choro. — Simples assim. Ligaram pra ele hoje de manhã.

O pai dela era engenheiro civil e trabalhava na construção do Templo de Salomão — a obra faraônica da Igreja Universal que se tornou um marco da zona leste de São Paulo.

Aquela notícia bateu em mim como um soco no peito.

Por um lado, eu sentia muito pelo que tinha acontecido.

A família dela vivia apertada de grana, morando de aluguel num apartamento minúsculo no pé da Serra da Cantereira.

Por outro, eu vinha planejando terminar com Amanda já fazia um tempo, e agora teria que esperar ainda mais. Convenhamos: seria insensível fazê-lo naquele momento.

Encerrei o telefonema bastante chateado, e, pra distrair a mente, peguei meu computador e comecei a olhar vagas de estágio.

Em 2014, eu ainda estava no segundo ano da graduação e nunca tinha tido um trabalho formal.

Durante aquela tarde — até a hora de sair pra assistir à final — eu disparei meia dúzia de aplicações.

Dentre elas, uma para a Siemens.

Alguns meses depois — tendo passado por uma série de testes e dinâmicas e entrevistas — recebi o sim dessa vaga na Siemens, no que viria a ser o primeiro passo da minha carreira empresarial.

Dias depois, terminei com Amanda. Pelo Facebook mesmo. Ela ficou injuriada, mas eu sentia apenas alívio. Nunca olhei pra trás.

A final da Copa de 2014 acabou ficando gravada em mim como um momento de transição: de estudante para profissional; de adolescente para adulto; de preso num relacionamento que nunca fez sentido para homem livre.

E essa transição estará pra sempre acoplada à lembrança de estar ali, de pé nas areias da Praia de Iracema, olhando para aquele telão e sentindo a tensão de quando Higuaín quase abriu o placar, e a explosão de alegria de quando Mario Götze fez o gol heróico no segundo tempo da prorrogação.

Pra ser sincero, eu nem me lembro da celebração. Acho que voltei pro hotel e fui dormir assim que acabou o jogo. Não importa.

Mais do que um momento apoteótico do esporte, uma final de Copa do Mundo é uma foto da vida que a gente tira a cada quatro anos e guarda pra sempre no álbum da memória.

A final de 1998 — minha primeira memória de Copa — eu assisti na casa do meu vô, torcendo freneticamente pela França. À época, eu tinha três anos de idade e era fascinado pelo uniforme azul, branco e vermelho dos franceses. Vivia pedindo um de presente.

Nos anos seguintes, muita coisa aconteceu em casa. Meu pai perdeu o emprego. O restaurante da minha mãe teve que fechar. Morreu meu tio. Nos mudamos pro interior. Eu me tornei uma criança gordinha e reclusa.

A final da Copa de 2002, lembro que assisti em casa. Celebrei o penta com cornetas e bandeirolas no centro de Valinhos.

Depois disso, a gente se mudou pra Alemanha. Passamos uns anos por lá e então voltamos para o Brasil.

Nesse período eu cresci bastante e criei paixões que me acompanham até hoje, como o piano e o tênis.

A final da Copa de 2006 eu acabei ouvindo no rádio, a caminho do aeroporto para uma viagem de férias.

E Zinedine Zidane está eeeeeeexpulso! — disse o locutor naquela voz de AM. — Uma cabeçada no peito de Marco Materazzi.

Dessa vez, eu estava torcendo contra a França. Tinha ficado chateadíssimo quando eles eliminaram o Brasil.

Os quatro anos que sucederam a essa partida foram o desabrochar da minha adolescência.

Consequentemente, a final da Copa de 2010 foi a primeira que assisti de mãos dadas — à época, com minha primeira namorada.

Foi um jogo morno e completamente desinteressante, condizente com o meu relacionamento e com o pior advento da história do futebol: o tiki-taka.

Depois disso veio 2014 — do qual já falamos — e quatro anos depois veio 2018.

Nesse ínterim, eu saí da Siemens e trabalhei numa empresa renomadíssima de consultoria, onde ganhei muito dinheiro e fui profundamente infeliz.

Pedi demissão com o intuito de empreender, mas à época da copa de 2018, as coisas não estavam dando nada certo pra mim.

Eu tinha perdido o brilho nos olhos e me sentia um zumbi, repetindo todos os dias o mesmo dia em busca do fim do arco-íris.

Eram tempos de muita solidão e de pouca esperança.

Na final da Copa de 2018 eu estava em casa, com Letícia e um grupinho de amigos que tinha vindo passar o fim de semana.

Lembro que o jogo foi muito fraquinho e que eu não conseguia nem me concentrar na televisão.

Só queria sair correndo e me esconder do mundo.

Nos quatro anos seguintes, contudo, a maré virou — e como virou.

Minha carreira em tecnologia deslanchou de forma meteórica.

Me mudei pra Berlim. Fundei minha startup. E depois de uma série de turbulências na minha vida pessoal, tudo parecia, enfim, bem.

A final de 2022 eu assisti no apartamento dos meus pais.

Pra quem não lembra, ela aconteceu, excepcionalmente, em dezembro, dado o ajuste de calendário para evitar o calor bizarro no Catar.

Era Natal, Copa e réveillon, tudo junto e misturado. Que festa!

Naquela tarde, eu torci com todo vigor pela Argentina — ou melhor, contra a França.

Berrei horrores diante da TV, na que foi, de longe, a melhor partida de futebol que eu já assisti.

Desde então, passaram-se quase quatro anos, e aqui estamos, diante de mais uma Copa.

No dia 19 de julho será a grande final, em Nova Iorque.

Os competidores ainda estão indefinidos, mas se eu tivesse que apostar, diria que a maldita França vai estar lá uma vez mais.

Como será que vou me lembrar desse dia quando ele for apenas uma memória distante de um tempo que se foi?


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