Um réquiem brasileiro
Cabo Frio, nove da manhã de uma terça-feira qualquer.
Eu estou de férias com um amigo alemão.
Vamos à praia como quem não quer nada, e acabamos envolvidos num futebolzinho recreativo. Coisa simples, coisa boba.
Eis que, enquanto a gente joga, aparece na calçada um sujeito de terno e gravata, nitidamente a caminho do serviço.
Um cara do meu time interrompe a partida, assobia na direção do cidadão, e diz:
— Aííí-a, bora?
O sujeito para, examina a cena e dá uma checada no relógio.
Ato contínuo, ele tira o paletó, desata a gravata, desabotoa a camisa, descalça os sapatos, e puxa a calça pra baixo, revelando uma sunga azul. Por fim, dobra tudo bonitinho, enfia na mala e vem jogar com a gente. Quinze minutos, uma assistência e dois gols depois, ele agradece, se veste e vai trabalhar.
Quer algo mais Brasil que isso?
Semana passada, eu contei essa história para meu amigo Holger — um alemão de sessenta anos que viveu no Brasil entre as décadas de 80 e 90, época em que conheceu meus pais.
Mas enquanto eu falava, ele fechou os olhos, como se minha anedota lhe doesse no coração.
— Preciso confessar que minha última visita ao Brasil foi uma grande decepção — ele disse. — O país que me encantou, o país pra onde eu sempre sonhei em voltar... esse país não existe mais. As pessoas parecem tensas. As ruas não têm mais o mesmo brilho. O Brasil perdeu a leveza.
Pausa.
Caro leitor, antes que o ufanismo dê um curto-circuito nas suas sinapses, para um pouquinho. Respira. Agora leia de novo o que o Holger disse. Vamos aceitar uma coisa: não dói porque é mentira; dói porque é verdade.
Nós não podemos mais protelar essa conversa.
Precisamos falar da nossa leveza perdida.
Vamos lá.
Quando eu penso em Brasil, a primeira imagem que me vem é a de um céu agitado, armando tempestade depois de um dia de calor.
Vejo o vento balançando as antenas sobre os telhados e farfalhando as copas dos ipês da rua de casa.
A luz pisca uma vez. Duas, três.
Minha mãe levanta pra pegar as velas e fala pra eu não ligar o chuveiro até a chuva passar.
Quando eu penso em Brasil, penso também nas abelhinhas voando em volta de uma lixeira cheia de resto de fruta na feira.
Eu me vejo num carro descendo a serra, até que, perfilada entre a mata e o desfiladeiro, abre-se a vista para o oceano.
Quando eu penso em Brasil, eu me vejo pisando pra fora do aeroporto de Guarulhos, aspirando aquela primeira lufada de ar quente e úmido e dizendo: cheguei em casa, porra.
Eu amo o Brasil.
E justamente por isso é tão difícil lidar com o que ele vem se tornando.
Hoje, quando eu penso na nossa terra, as imagens lindas da minha infância dividem espaço com igreja de parede preta, propaganda de bet e motociata na Paulista.
Eu penso em dermatologistas de jaleco rosa postando stories sobre bioestimuladores de colágeno.
Eu penso na horda de entregadores de aplicativo que passavam todos os dias pontualmente às 00:03 em frente ao meu prédio no Brooklin, saindo do serviço numa dark kitchen ali por perto.
Eu penso em trembolona, mounjaro, tadalafila e rivotril — sintomas de uma vida flácida, obesa, brochada e ansiosa.
Eu penso nas caixas de comentário onde as mesmas figuras vivem duelando sobre os mesmos assuntos com os mesmos argumentos há sei lá quantos anos.
Eu penso nos homens saindo por aí de jeans skinny, sapatênis e camisa xadrez como se ainda fosse 2006.
Até o começo dos anos 2000, o Brasil costumava ser um conceito, um jeito de viver a vida.
Nosso país pendulava entre a comédia trágica e a tragédia cômica, mas a gente matava no peito essa dicotomia, seja na música, na arquitetura ou no futebol.
Mas alguma coisa aconteceu de uns anos pra cá.
O brasileiro cansou dos altos e baixos e decidiu ficar nos médios.
Viver uma vida confortável entre o bege aveludado dos prédios residenciais e o cinza envidraçado dos shoppings e escritórios.
Viver pulando de reel em reel, de hype em hype, consumindo muito e não criando nada ou quase nada.
Viver abraçado a maniqueísmos medievais, a moralismos safados e a roteiros pra lá de cansados sobre como viver a vida.
Em nome de quê a gente se encastelou nessa redoma de marasmo? Prosperidade? Segurança?
Eu sei que o Brasil ainda é um país pobre, e que a pobreza só se alivia com esperança.
Mas eu sinto que havia dignidade quando a gente tragava a pobreza com um gorpe de cachaça e um maço de Derby.
A gente era pobre, mas pelo menos era desonesto. Ser pobre e honesto ao mesmo tempo é muito triste.
Pensa no horror de ir ao culto pra ouvir a palavra do Senhor, e sair de lá pensando: se eu orar bastante, semana que vem bato dez mil seguidores. Glória.
Não adianta, o diagnóstico é claro: estamos diante da sauditização do Brasil.
Estamos nos tornando um povo cada vez mais fundamentalista, obcecado por grana, e perna de pau.
Uma nação de príncipes, fidalgos e ex-jogadores, vivendo a vida a meio mastro.
Como vestir a camisa de um país assim?
Entenda que meu pavor nunca foi a derrota; perder porque o adversário jogou melhor faz parte da vida.
Meu pavor é a cafonice.
Em 82, a gente saiu derrotado, mas entrou pra história.
Aquela seleção era o retrato de um país que latejava de boas ideias, prestes a romper com a mordaça.
Já a seleção de 2026 é o retrato de um Brasil tão desalmado quanto uma porção de dadinho de tapioca num barzinho badalado do Itaim.
Um Brasil que fala muito e não diz nada. Que dá surra de pau mole no Haiti, depois toma dois do Haaland e volta pra casa. Um Brasil sem palmeiras, sem sabiá, e que já não gorjeia mais.
A solução? Só Deus sabe.
O que me resta é finalizar com uma prece:
Deus, se você é mesmo brasileiro, eu te imploro: me dê um Brasil de tons saturados, de muito verde, muito amarelo, e em especial de muito azul, porque eu não aguento mais esse Brasil cor de burro quando foge.