Ciborgue
Ontem às 17:00 eu tive uma entrevista numa startup de IA.
Meus entrevistadores — um alemão, o outro, marroquino — me receberam na porta do escritório e me conduziram por um corredor estreito até uma salinha com três poltronas e uma tela gigante.
Cabo vai, cabo vem, e logo apareceu na tela um desafio de engenharia que eu teria duas horas pra solucionar.
Antes de mergulhar no enunciado, contudo, nós fizemos uma breve rodada de apresentações pessoais.
Depois de ouvir sobre a minha trajetória profissional, o alemão perguntou:
— E fora do trabalho, o que você gosta de fazer?
— Eu gosto de escrever — respondi, abrindo um sorriso.
Os dois se entreolharam.
— Interessante... Você escreve sobre o que? Tecnologia? — perguntou o marroquino.
— Ficção.
— Científica?
Respirei fundo, ponderando se valia a pena explicar. E decidi que valia, sim. Mais do que o dever civilizatório, foi a memória das contas a pagar que me convenceu.
Então apresentei aos dois o conceito de crônica.
— É um gênero que vive entre a ficção e o jornalismo — expliquei. — Tem crônicas mais meditativas, outras mais alegóricas, e outras ainda que são quase fotografias: registros da vida cotidiana construídos não tanto pela reflexão ou pela imaginação, mas pela perspectiva.
— Muito legal — comentou o alemão. — E de onde você tira a inspiração?
— Das coisinhas que me acontecem no dia a dia — respondi, e parei pra assistir a ficha caindo.
— Vo... você vai escrever sobre a nossa conversa?
— Eu publico toda quinta — retruquei, ainda mais sorridente. — Já é quarta fim do dia e eu ainda nem comecei. Veremos.
Depois disso, partimos para o desafio. Duas horas depois, concluímos a entrevista.
Nisso, abriu-se a porta da sala, revelando uma figura muito alta, muito magra e dotada de um rosto ossudo e icosaédrico, que, dependendo do ângulo, até lembrava um rosto humano.
Tratava-se do fundador da empresa, por quem o time parecia nutrir uma profunda reverência, vocalizada de cinco em cinco minutos na forma de elogios e anedotas.
— O time está saindo pra jantar — avisou o fundador-ciborgue. — Patrick, você topa... repartir o pão conosco?
— Claro! — eu confirmei, querendo muito ir embora.
Fomos em seis — todos homens, todos engenheiros — ao Kiez-Falafel, uma cantina libanesa próxima ao escritório.
Sentamos numa mesinha do lado fora, em frente ao Rosa-Luxemburg-Platz, pra curtir a noite de verão.
— Eu fico irritado quando me deparo com coisas na minha vida que ainda não foram automatizadas. Não te irrita que ainda não dá pra usar IA pra tudo? — o ciborgue perguntou, olhando fixamente na minha direção.
Comecei a repetir na minha cabeça contas a pagar, contas a pagar pra me lembrar que eu estava ali tentando ser contratado.
— Nos últimos três meses — comecei a responder — eu entrevistei dezenas de engenheiros por conta do meu trabalho atual. E tirando as entrevistas em si, eu consegui, pouco a pouco, automatizar grande parte da minha rotina.
Quando fechei a boca, percebi que meu subconsciente projetou ali uma dimensão de meta-humor bastante inconveniente, embora, de forma alguma, descabida à situação.
— E por que não as entrevistas em si? — rebateu o ciborgue. — Você não acha que, muito em breve, entrevistadores humanos serão substituídos por equivalentes artificiais?
Contas a pagar, Patrick. Contas a pagar.
— Talvez sejam — devolvi, abrindo um guardachuva dentro do meu cérebro pra segurar a tempestade de cortisol. — Mas eu enxergo dois desafios cruciais. Do lado da empresa, a dificuldade de captar a vibe da pessoa, que é um fator importantíssimo na hora da contratação. E do lado dos candidatos, muitos podem acabar se sentindo desrespeitados: se eles estão dedicando tempo a uma entrevista, por que a empresa não dedica o tempo de alguém, também?
Pra minha surpresa, houve um silvo de concordância na mesa, puxado pelo marroquino e endossado pelo alemão.
— O ponto da vibe eu concordo, sem dúvida — prosseguiu o ciborgue, muito satisfeito com o rumo que a conversa estava levando. — Mas quanto aos candidatos... você não acha que as próximas gerações vão preferir conversar com bots?
Então ele girou a cabeça uns quinze graus pra esquerda, mirou o olhar no rapaz ao meu lado e disparou:
— Você nasceu lá pro meio dos anos 2000, certo?
O menino balançou a cabeça, arredio.
— O que você pensa sobre isso?
Que dó do moleque.
Parecia preso numa nave espacial com o HAL 9000.
— Eu... ahm... gosto de IA pra coisas do trabalho. Pra coisas da minha vida pessoal, prefiro falar com... ahm... humanos mesmo.
— Talvez seja algo pra geração que vem depois da sua então! — ponderou o ciborgue, abrindo um sorriso cheio de dentes.
Nisso apareceu o garçom com o pedido.
Falafel, halloumi, pão, bulgur.
Uma comida muito bonita e muito gostosa.
Eu queria comer rápido pra dar o fora, mas o ciborgue não demonstrou pressa alguma em dar a primeira garfada.
— E se a gente pedisse para o candidato criar um clone digital como parte do processo seletivo? Poderia ser uma coisa muito divertida: traga a sua IA para a entrevista, e nós traremos a nossa!
Essa daí derrubou o disjuntor do meu córtex pré-frontal.
Eu já estava mais do que pronto pra falar umas verdades, quando o marroquino tomou a palavra:
— Eu nunca faria isso. — ele disse. — Acho que nenhum colega meu faria.
O alemão, muito empenhado em morder seu sanduichinho de falafel sem derrubar tahine na blusa, balançou a cabeça em concordância.
Por um lado, essa intervenção foi um alívio.
Por outro, ela disparou um longo debate que custou mais uma hora inteira da minha noite.
Falaram de revolução industrial, de renda básica universal e de todo o leque de assuntos que toda maldita conversa nessa bolha tem que abordar.
Nada de novo embaixo do sol de junho.
Já eram quase nove horas quando eu finalmente pude ir embora.
O ciborgue foi o último a se despedir de mim, prometendo dar uma resposta quanto ao processo seletivo muito em breve.
— Ainda amanhã, se possível.
O céu ainda brilhava lilás quando eu subi na bicicleta.
Fui voltando em direção a Prenzlauer Berg pela margem do Volkspark, de onde soprava uma brisa leve e fresca.
As copas das árvores nessa lateral da rua Am Friedrichshain são lindas nessa época do ano.
Não sei que árvore é — não entendo nada de botânica — mas ela é alta e densa e toda pontilhada de florzinhas douradas.
E nessa mesma rua fica o meu cinema favorito.
Quando passei na frente, senti um cheirinho delicioso de pipoca e parei pra ver os cartazes dos novos lançamentos. Que vontade que deu de simplesmente entrar pra assistir um filme.
Quem sabe no fim de semana.
Quem sabe.
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