Bravata
De uns tempos pra cá, vem amadurecendo em mim a vontade de escrever um romance.
Antes de começar com as crônicas, eu cheguei a tentar.
Trabalhei por um tempo numa história chamada Oblívia, que contava da descoberta de um hibisco mágico que dava aos moradores de uma fazenda a capacidade de apagar memórias — as suas próprias, e as dos outros.
Eu gostava muito dessa história e pensava nela dia e noite. Cheguei a bolar todo o enredo, conceber personagens, estruturar capítulos — mas quando veio a hora de botar a caneta no papel, eu falhei. Era sempre a mesma coisa: eu avançava uma, duas páginas na terça, e aí jogava tudo fora na quarta. Foram tantos recomeços que, um belo dia, eu simplesmente larguei mão.
E não tardou até que pipocasse uma nova ideia de romance.
Essa acabou ficando sem título, mas contava de um ladrão de bancos em fuga que deixava pra trás namorada, amigos e família para criar uma nova identidade, aproveitando o momento pra viver todos os sonhos que ele nunca tinha se permitido.
Nessa história, minha abordagem foi bem diferente: eu não estruturei nada de antemão — simplesmente saí escrevendo. Foi uma experiência muito gostosa, e o resultado inicial foi, sem dúvida, bem mais interessante do que qualquer coisa que eu tinha escrito até então. Dito isso, a falta total de um fio pra toda essa meada acabou travando meu progresso. Quando o protagonista finalmente se estabelecia em sua vida nova, ele não sabia muito bem qual era o próximo passo — nem eu. Foi aí que cometi o erro fatal de pular até o fim e escrever a sequência final — que me veio num sonho totalmente maluco — e então tentar voltar lá atrás e preencher o vão.
Trágico.
Nunca tentem preencher vãos, crianças. Sempre restarão frestas enormes por onde vai escorrer toda a coerência da sua ficção.
Enfim, pressionado pelos muitos tique-taques da vida, decidi abandonar essa história e focar em textos curtos — uma escolha que se mostrou muito assertiva.
Hoje, eu não me enxergo mais sob o mesmo risco de procrastinar em grandes planejamentos como em Oblívia, nem de me perder no matagal das minhas próprias ideias como na outra história.
Publicar uma crônica por semana me força a encontrar um equilíbrio dinâmico entre o plano e o improviso.
Todo texto começa com a simples pergunta: o que eu quero dizer? A partir daí, é só dizer, ué.
E aí: será que eu estou finalmente pronto pra algo maior?
Escrever um romance é um empreendimento sinfônico.
Entre concepção e publicação, é coisa de meses, talvez anos de trabalho.
E o verdadeiro desafio que tenho pela frente — muito mais que a procrastinação e a bagunça — é que eu sou uma pessoa terrivelmente indisciplinada.
Faço o que quero, quando quero, e não deixo ninguém ditar como eu devo viver o amanhã — nem mesmo o imbecil que eu chamo de eu.
Ontem mesmo eu estava cheio de trabalho pra entregar na empresa. Era migração de código, plano de lançamento da nova plataforma, dúvida pra cá, ideia pra lá. Uma loucura.
Passei a manhã cuidando da reforma do meu apartamento, e quando finalmente sentei na frente do computador, acabei parando pra escutar o primeiro movimento do segundo concerto pra piano do Brahms. São vinte minutos de música. Escutei seis vezes seguidas. Faz a conta aí.
E a coisa piora.
Assombrado pela melodia de abertura, eu passei coisa de uma hora lendo sobre o concerto, pescando referências e anotando minhas reflexões. Enquanto isso, lá fora o sol ia ficando cada vez mais baixinho no horizonte.
E aí me deu sede.
Abri a geladeira e não achei nada de interessante, então chamei um amigo pra tomar uma cerveja. Papo vai, papo vem, a gente acabou ficando no bar pra assistir ao jogo da Inglaterra. Quando fui ver, bicho, era de noite já.
Fui fazer xixi, e retornei pra mesa cantarolando a melodia do Brahms. Meu amigo quis saber o que era aquilo. Pobre rapaz, ativou o TV Escola.
Voltei pra casa sei lá que horas, todo trilili, com o Brahms me chacoalhando pra cá e pra lá.
Só quando eu caí na cama é que me toquei da banana que eu dei para os meus compromissos profissionais.
Não fiz a migração do código. Não enviei o tal do plano de lançamento. Não respondi às sei lá quantas mensagens me enviaram nesse ínterim.
E posso falar a real? Foda-se.
A relação que eu tenho com a minha carreira em tecnologia é a relação que eu tenho com a tecnologia em si: uso e abuso, bebê.
O que me apraz é escrever, e qualquer outra demanda ficará apenas com os restos e rebarbas do meu tempo.
— Talvez o Bukowski não seja uma boa referência para a sua vida, Patrick — ponderou minha psicanalista, depois que eu compartilhei uma citação. — Você bem sabe que ele sofria de uma série de questões psicológicas, possivelmente até psiquiátricas.
— Mas escrevia bem pra um caralho, não escrevia? — lamentei.
Ela apenas me encarou de volta. Aliás, ela faz isso com frequência. Parece até que eu tenho o hábito de derrapar pela tangente a bordo das minhas bravatas.
Enfim, talvez o caos que lateja no meu coração seja, mesmo, uma revolta com a minha covardia de não ter abraçado a minha própria causa mais cedo na vida.
Quem sabe, em se tratando da escrita, a indisciplina nem seja uma falha, e sim um recurso.
E talvez eu nem seja tão indisciplinado assim.
Afinal de contas, por mais ranço que eu tenha de gente regrada, cá estou, me puxando pelo cangote pra honrar o compromisso de publicar toda quinta-feira uma crônica.
Será que eu coloco um prazo pra terminar o romance que eu ainda nem comecei?
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