Espaço-tempo

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Espaço-tempo
Photo by Jeremy Thomas / Unsplash

A arte imita a vida, a vida imita a arte, e nenhuma das duas respeita as leis da física. E não tem que respeitar mesmo. Por que se prender a esse monte de letrinha grega metida à besta?

Quem vive de grandes certezas são as almas pequenas; o povo que não viveu o suficiente pra perder a coerência; as esferinhas perfeitinhas que flutuam no vácuo de uma vida vetorial.

Acho um porre.

Morro de pena de quem nunca ocupou, simultaneamente, o mesmo espaço que outro corpo.

Tenho pena inclusive de quem nunca sentiu o desespero de ver o próprio corpo ocupar, simultaneamente, dois espaços diferentes.

Basta tirar o nariz da lousa que a gente aprende rapidinho que espaço e tempo não são limites e sim abstrações; ferramentas que ajudam a nos situar no presente plantando conceitos como longe e perto, causa e consequência.

Desde pequenos, a gente aprende a organizar a vida em torno da malha do espaço-tempo. Aprendemos a assumir que, na vida, tudo acontece em contiguidade. O A vem ao lado do B. O 1 vem antes do 2. O túnel tem sempre duas saídas: uma para um lado, outra para o outro; uma no antes, outra no depois.

É simples, é lógico, traz paz.

Essas balizas imaginárias nos confortam diante da mais terrível e fantástica de todas as perguntas: onde estamos?

Pena, caro leitor, que a contiguidade é uma grande ilusão.

O túnel pode ter duas, três, oito saídas. Uma só. Nenhuma.

É perfeitamente possível estar, simultaneamente, parado na Avenida do Estado, mas curtindo uma água de coco na Praia da Feiticeira. E vice-versa.

Quanto tempo dura o agora? Até onde vai o aqui?

É possível (embora pouco recomendável) fazer o um-dois com a moça de vestido azul e o cha-cha-cha com a de amarelo.

A presença é onde está o olho, ou onde está o olhar?

Tem dias nos quais o mês passado está muito mais próximo que a noite seguinte.

Tem dias nos quais voltar pra casa demanda cruzar o oceano.

Percebe a escala da ilusão?

Mas talvez o caro leitor, de coração determinista, me acuse de incorrer na falácia de atribuir materialidade ao imaterial.

Pois eu insistirei que a presença de espírito é material, sim. Pra lá de material.

Veja: eu consigo interferir fisiologicamente no meu corpo escolhendo se penso no meu cachorro ou no Donald Trump.

Batimento cardíaco, neurotransmissores, hormônios: a projeção dessa presença é física. E essa projeção pode ser passageira ou duradoura, individual ou coletiva.

A memória que eu tenho da casinha de praia onde eu costumava passar as férias de verão com o meu melhor amigo é um arranjo neural compartilhado entre nós dois.

Quando eu decido invocá-la, eu acesso um lugar e um momento ao qual ele também tem acesso.

E toda vez que eu faço isso, me pergunto: será que ele está fazendo o mesmo?

Mas pouco importa.

Ele já está lá, entende?

A presença de espírito pode saltar décadas e milhares de quilômetros num só pulo. Ela reaviva os mortos, mata os vivos, viola a segunda lei da termodinâmica e anula a conservação da quantidade de movimento. Por que se restringir a quatro dimensões se podemos ter quantas a gente quiser?

A gente só faz isso porque não quer lidar com a bagunça.

Imagina a quantidade de equação a ser reescrita.

O princípio da incerteza de Heisenberg dita que não é possível determinar, ao mesmo tempo, a posição e o movimento de um objeto.

Ao medir a posição, perdemos o movimento. Ao medir o movimento, perdemos a posição.

Quanto a isso, eu levanto a dúvida: se o próprio objeto pudesse medir a si mesmo, será que ele conseguiria precisar ambos?

Quem sabe aí não esteja a chave.

Estar ou não estar? Somente o próprio objeto pode responder.

Mas como responder a isso, se não existe um referencial fixo; se a nossa presença é simultânea, fragmentada, incongruente?

Talvez seja por isso que a gente se prenda tanto às rochas ígneas do ser e evite os campos vulcânicos do estar.

Nós queremos a segurança do imutável; as garantias da contiguidade; o doce devir de um vetor.

Mas quando chega o momento na vida em que finalmente percebemos as insuficiências do espaço-tempo — e esse momento chega pra todo mundo — nós entramos em parafuso.

Pedimos espaço. Pedimos tempo. Corremos de um lado pro outro tentando encontrar a saída do maldito túnel, mas tudo o que encontramos é uma longa e terrível escuridão.

Se este for o seu caso, caro leitor, sinto em dizer que não tenho um mapa a oferecer.

Bom, eu tenho.

Mas esse mapa só funciona pra mim.


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