Os aviadores

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Os aviadores
Photo by Ágata Morgan / Unsplash

Os pilotos que faziam o frete aéreo entre a Europa e a América costumavam brincar que, a cada viagem, o Atlântico encolhia mais uma milha.

Quando eu comecei, era um oceano. Agora já virou lagoa. Daqui a pouco é só uma poça.

O comandante Paulo A. T. R. Frota já tinha ouvido essa máxima umas mil vezes em sua carreira.

A mais recente foi na tabacaria Nordost — Terminal 2 do Aeroporto de Frankfurt — enquanto aguardava que os mecânicos liberassem seu Boeing 767 para voar ao Rio.

Quem a recitou dessa vez foi o comandante Tibúrcio Costa, que voava a rota Rio-Frankfurt ao lado de Paulo desde a época em que os dois ainda podiam contar os fios brancos no cabelo.

Paulo e Costa faziam uma perna a cada dois dias. Eram dez horas por voo, totalizando sessenta horas por semana na cabine: tempo de sobra para conhecer um ao outro melhor do que suas próprias famílias.

Muito melhor, aliás.

Paulo não era casado. Nunca nem tentou. O pouco de convívio familiar que ele tinha na vida era um rápido telefonema com os pais sempre que pousava no Galeão.

Tô bem, pai — Costa imitava o colega, fazendo uma vozinha relutante e envergonhada. — Sim, mãe, o voo foi tranquilo.

Em tantos anos voando juntos — acredite se quiser — os dois pilotos nunca tinham se encontrado fora do aeroporto.

Saindo do terminal, cada um entrava num táxi e só reencontrava o outro na tabacaria antes do próximo voo.

Talvez fosse melhor assim.

No Rio de Janeiro, Paulo ficava no Solar do Leme, um pequeno hotel familiar de frente para a praia.

Ele gostava dali pelo pãozinho-de-queijo do café-da-manhã, e pelo cheiro de couro da recepção, onde ele costumava passar bastante tempo lendo o jornal, tomando suco de laranja e escutando o rádio que nunca desligava.

A vista para o mar era um pesar, não um benefício. Sempre que possível, Paulo pedia para ficar num quarto com vista para o morro.

Já quando estava em Frankfurt — cidade que Paulo demorou a tolerar, mas que enfim conquistou seu profundo apreço — ele sempre ficava no Pension Talbrück — uma pousadinha no andar de cima de um restaurante chinês bem no centro da cidade. Sua programação habitual era fazer check-in, ir à livraria do outro lado da rua, comprar um livro, depois ir ao chinês, pedir um Mapo Tofu e um suco de lichia, e ler enquanto ainda jantava. Aí ele voltava para o quarto, ligava o abajur e deixava passando o canal de esporte enquanto lia até adormecer.

Eram noites solitárias, com as quais seu colega sequer sonhava.

É que enquanto Paulo não tinha casa, Costa tinha duas.

A primeira era em Laranjeiras, já quase chegando na Lagoa, onde ele tinha herdado dos avós um apartamento ensolarado com uma varanda espaçosa e duas vagas de garagem. Ali, Costa vivia com a esposa, Antônia, e os três filhos, Antônio, Teutônio e Apolônia.

A segunda casa era em Kronberg, um pequeno reduto de gente bem-de-vida nos arredores de Frankfurt. Logo no começo da carreira de piloto ele comprou um lote e construiu um sobradinho com um jardim muito gostoso, onde ele gostava de tomar café-da-manhã na companhia de Susi (shih-tzu), Schmusi (schnauzer) e Sonja (sua outra esposa).

Três noites por semana ele dormia numa casa; três na outra; e a última no avião, ao lado de Paulo (uma das rotas era noturna).

Essa era a única noite de paz na vida de Costa. A noite em que ele podia bater papo, arrotar, peidar e rir da própria desgraça até cair no sono.

Foi numa dessas noites — depois que Costa já havia dormido — que Paulo viu algo que não podia ser desvisto.

E era justamente disso que ele estava contando ao colega quando chegou o sinal verde dos mecânicos. Hora de voar.

Costa deu um último trago no seu Monte Cristo, e se apressou pra alcançar Paulo, que já tinha partido sozinho em direção ao embarque.

Uma vez atingida a altitude de cruzeiro, os dois retomaram a conversa que tinha começado na tabacaria.

— 30.2095664 Norte, 42.1337489 Oeste — Costa leu no diário de Paulo. — Então você tem certeza?

— Tenho.

— Uma ilha?

— Ilhota.

— Que ninguém mapeou?

— Ninguém.

— Nenhuma caravela, nenhum cargueiro, nenhum satélite. A ilha — perdão, ilhota — passou despercebida por toda a humanidade até o grande comandante Paulo A. T. R. Frota sobrevoá-la a trinta e cinco mil pés e vê-la pela janela?

— Correto.

Costa respirou fundo.

— Às vezes eu me pergunto se...

— Se?

— Deixa pra lá.

O voo transcorreu sem intercorrências durante as primeiras cinco horas. Quando enfim eles se aproximavam das coordenadas da ilhota, Costa se mostrou preocupado:

— O céu tá coberto. Não vai dar pra ver a sua Atlântida.

Nisso, Paulo empurrou o manche, apontando o nariz do Boeing para a densa camada de nuvens alguns milhares de pés abaixo.

O colega o encarou com assombro e fez mais meia dúzia de comentários irônicos, mas não conseguia conter o entusiasmo.

As nuvens densas chacoalharam o avião, e a perda inesperada de altitude disparou uma série de chamadas pelo rádio, prontamente ignoradas pelos dois pilotos.

Quando atingiram seis mil pés, atravessaram a rebarba final da última camada de nuvens.

Embaixo, apenas o azul escuro e enrugado do oceano.

E ela.

Sim, lá estava ela.

Um círculo verde escuro cercado de enormes paredões de rocha, impenetráveis para quem viesse pelo mar.

A oeste, um longo apêndice de pedra polida se esticava rumo ao horizonte — liso, sem impedimentos e longo o suficiente para pousar um 767.

— Você acha que tem cobra nessa mata? — perguntou Costa assim que eles abriram a porta da aeronave.

Tinha, mas eram pequenas e, a julgar pelas consequências da mordida que Paulo tomou logo na primeira semana, não eram peçonhentas.

O primeiro mês passou voando.

Os dois pegaram tudo quanto é coisa que encontraram no cargueiro pra montar uma base confortável logo na entrada da mata, a uma meia horinha de caminhada do avião.

O local foi escolhido em razão de uma cachoeira próxima onde podiam beber água e se lavar, e também dos coqueiros que ofereciam seu principal alimento.

Com o tempo, eles aprenderam a fazer fogueira, a coletar água da chuva, a caçar lagartos e prepará-los no fogo com um temperinho local que parecia capim-limão. Aprenderam também a buscar mel na mata, a se proteger da chuva e a entender o vento e as nuvens.

O pequeno acampamento tornou-se um forte com estruturas de madeira, um posto de observação e uma dispensa cheia de mantimentos.

Pra passar o tempo, eles esculpiram jogos de tabuleiro e se propuseram um grande desafio: conseguir descer uma falésia para chegar até o oceano. Esse desafio logo se tornou uma obsessão, ocasionando expedições de exploração pela ilhota em busca de pontos em que a descida fosse viável.

Foi apenas lá pro sexto mês que eles encontraram uma caixa ainda fechada no bagageiro do avião repleta de rolos de tecido, que foram prontamente utilizados para fabricar uma corda forte e comprida. Removendo as fivelas dos cintos, eles improvisaram mosquetões. E assim, estava montada a estratégia de descida.

Mas quando eles finalmente tinham tudo o que precisavam para arriscar a aventura, Costa deu pra trás de última hora.

Ele já vinha ficando estranho há algum tempo. Mal pregava o olho à noite. Passava o dia cabisbaixo. Não queria comer.

Paulo, que não era muito de se intrometer, enfim perguntou o que estava acontecendo.

— Faz um ano, cara. Faz um ano que a gente tá aqui. — Costa suspirou. — Eu sinto saudades de casa.

— Qual delas? — retrucou Paulo, sem se mover. As camas deles ficavam no mesmo cômodo, uma de frente pra outra.

— Eu tinha uma vida, sabe? — retomou Costa.

Paulo levantou da cama.

— Ué, e por acaso você morreu?

Irritado, Costa também se levantou.

— Certamente nós dois já temos atestado de óbito.

— Até aí, nós dois tínhamos o de nascimento, e quantas vezes você me disse que queria se sentir vivo?

O embate durou a noite toda. No dia seguinte, um vento forte derrubou parte do teto que cobria o forte. Os dois trabalharam em silêncio na reconstrução até o sol se pôr. Paulo então abriu duas garrafas de Sprite que eles tinham trazido do avião e quis colocar uma na mão do amigo, que recusou.

— Isso daqui acabou. — disse Costa, e Paulo reconheceu pelo olhar do amigo que tinha acabado mesmo.

— Pra você acabou também? — Costa perguntou.

Paulo fechou os olhos.

No dia seguinte, os dois caminharam até o Boeing.

Costa sentou na cabine e acionou a chave central.

Houve uma breve hesitação, e então, um por um, acenderam-se o altímetro, o GPS, o rádio e a elétrica interna da aeronave.

Os olhos dos dois pilotos se cruzaram uma última vez por entre o vidro encardido da cabine.

Paulo ainda ergueu o braço e acenou, como se o amigo pudesse vê-lo pelo retrovisor, e continuou acenando até o avião ficar do tamanho das gaivotas, e enfim desaparecer no azul infinito.

Ele continuou parado ali por mais um tempo, assistindo as aves e as ondas e degustando o último gole da última Sprite.

Hoje ainda vai cair um pé d’água, ele pensou. Melhor eu voltar pra casa.

Então ele pegou a bolsa, passou a alça pelo pescoço e voltou em direção ao forte.

E é aqui que acaba a história.

Não tenho mais o que contar.

Isso foi tudo o que veio no bilhetinho que eu achei na garrafa de Sprite.


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