Irreconhecível
No dia em que Sofia desapareceu, ela pulou da cama no primeiro toque do despertador, sem soneca nem preguicinha.
— Achei estranho isso — o marido relatou à polícia. — Muito estranho. De manhã, ela sempre foi lenta, sabe?
Um oficial tomava notas enquanto o delegado conduzia a conversa.
— Ela tinha algum compromisso incomum?
— Não que eu saiba.
Depois de levantar, Sofia tomou banho, se vestiu, coou o café e tomou uma xícara enquanto mexia no celular. Quando deu seis horas, ela pegou a bolsa e partiu, mas parou na porta pra dizer o que teriam sido suas últimas palavras ao marido:
— Hoje acaba mais cedo.
Vinte e cinco minutos depois, ela chegou ao Café Niçoise, sacou da bolsa um molho de chaves e abriu a loja (testemunha ocular: Dona Janete, uma senhora que mora no prédio em frente ao café e que viu Sofia enquanto fumava um cigarro na sacada).
O primeiro cliente do dia foi Yves, um jornalista que era o primeiro cliente todos os dias.
Ele virava a madrugada na redação, saía por volta das seis e meia e passava no café antes de ir pra casa.
Como de praxe, Yves cumprimentou Sofia pelo nome e pediu um duplo espresso.
— Tinha algo de diferente nela aquele dia — ele refletiu diante do delegado. — Eu não sei dizer pro senhor o que era, mas tinha.
Essa mesma impressão foi compartilhada pelas duas pessoas mais próximas de Sofia: o irmão e a melhor amiga de infância.
— Ela andava irreconhecível — disse a amiga.
O irmão assentiu.
Coitado do rapaz: não tinha parado de chorar desde que soube do sumiço. Os dois eram muito próximos.
— Irreconhecível como? Quieta? Distante? Arisca? — arriscou o delegado.
— Isso seria o normal — respondeu a amiga. — Mas por alguma razão, ela parecia... leve?
Sofia passou o dia no café sem nenhuma intercorrência digna de nota. O movimento foi até que fraco pra uma quinta-feira — talvez por conta da chuva.
Quando deu cinco horas da tarde, Sofia tirou o avental, deu um trato na louça, informou um casal que tinha entrado na esperança de ainda conseguir um café que o expediente infelizmente já havia encerrado (o casal não foi identificado), pegou sua bolsa, saiu, trancou a porta e sinalizou para um táxi.
E é aqui que a coisa fica bagunçada, pois a polícia tem pelo menos três taxistas que alegam ter buscado Sofia.
Os três a reconheceram num teste fotográfico, e os três apontaram o mesmo ponto de coleta — porém destinos diferentes.
O primeiro taxista diz ter levado Sofia pra casa. A polícia verificou o endereço, e bate.
Aliás, não apenas isso, mas a portaria registrou a entrada de Sofia no prédio por volta das cinco e meia da tarde.
A câmera do elevador mostra ela subindo até o andar do seu apartamento — mas os registros param por aí.
Naturalmente, assim que esse vídeo chegou às mãos do delegado, ele decretou prisão preventiva do marido.
Parecia um caso como tantos outros.
O marido berrava que era inocente, mas falhava em fornecer qualquer tipo de álibi, até que enfim admitiu a verdade: às cinco e meia da tarde, ele estava numa agência dos correios enviando um presente à amante.
O fato foi confirmado por câmeras e por longas e tórridas trocas de mensagens.
— A Sofia sabia? — perguntou o delegado.
— Não sei até que ponto. — respondeu o marido, que parecia ter perdido dez quilos, dez centímetros e dez anos de vida nas dez horas em que ficou preso na delegacia.
Os investigadores estavam confiantes.
Sentiam que bastava espremer o sujeito um pouco mais pra encontrar uma pista definidora.
Mas foi nesse momento que apareceu o segundo taxista, contando uma história completamente diferente.
O homem alegou ter levado Sofia naquele fim de tarde a um tal de Vorfreude: um pequeno bar numa estação de metrô desativada.
E, de fato, um dos garçons reconheceu a foto de Sofia (arregalando os olhos ao vê-la).
Ele contou que Sofia tomou lugar no balcão, pediu um cynar spritz e ficou no celular, aguardando a bebida.
Quando a taça apareceu à sua frente, ela nem esboçou reação.
Continuou no celular, completamente imersa.
— O sinal lá embaixo é péssimo — comentou o garçom. — Se ela tava falando com alguém, era tudo picado. Mas ela tinha um sorrisinho no rosto e não parava de digitar.
Então, de repente, ela teria guardado o celular na bolsa, tomado um gole do spritz e levantado pra ir ao banheiro.
Depois de muito tempo sem que ela voltasse, o garçom foi checar e encontrou a porta do banheiro trancada.
Chamou uma vez, duas, três e nada.
Quase uma hora depois, ele retornou com uma chave-mestra, mas, para surpresa de todos, com exceção da bolsa pendurada num gancho na parede, o banheiro não tinha nenhum sinal de Sofia.
Não havia janelas, portas ou alçapões e o único acesso era pelo salão principal. Por onde ela teria saído?
Ao ouvir esse relato, o delegado prontamente acionou um perito de confiança para fazer uma varredura no bar, mas ainda na mesma tarde ele recebeu um telefonema a respeito de um terceiro taxista, que estava na delegacia aguardando para dar sua versão.
De acordo com esse cidadão, Sofia teria entrado em seu carro e mandado que a levasse ao aeroporto.
— Terminal internacional — ele frisou, sob o olhar desconfiado do delegado. — Foi uma viagem longa. Muito trânsito. E ela não desgrudou do celular nem por um instante.
Já tinha anoitecido quando ele enfim a deixou no embarque.
A polícia foi atrás e, de fato, as câmeras do aeroporto mostram Sofia passando pela porta giratória e caminhando com passos firmes na direção de uma fila de check-in.
Mas em algum momento da noite, a câmera pisca e Sofia desaparece de cena. A fila continua lá, mas ela não está mais presente.
Três versões. Três sumiços.
Travada nesse paradoxo há mais de dois meses, a polícia tentou uma nova abordagem. Em vez de caçar pistas, ela vem tentando traçar o perfil psicológico de Sofia desde a infância.
O delegado tentou conversar com a atual psicanalista de Sofia, mas ela se recusou a responder qualquer pergunta.
Foram atrás da analista anterior, mas encontraram-na morta.
Colegas, amigos, parentes: toda e qualquer pessoa que interagia ou interagiu com Sofia de maneira significativa foi ouvida, mas ninguém conseguiu iluminar a busca.
Ela segue desaparecida e o desespero só aumenta.
Portanto, se você estiver lendo esse texto e tiver alguma informação que possa levar até ela, por favor, compartilhe.
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